A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. XIII

A Bolha

(Se você deseja saber como essa viagem começou, clique aqui.)

Ainda planávamos e o palácio ficava cada vez maior, ao longe. Os raios de antigravidade faziam reflexos na superície da bolha. Eu, deitado de costas, com as mãos na nuca, olhava para o “céu” de Saturno, observando aquela gigantesca massa multicolorida infinitamente distante, no centro do planeta, emitindo incansavelmente ondas de antigravidade. Era um ponto luminoso do tamanho de uma moeda, mais ou menos, cujos raios mudavam de cor de acordo com o momento. Nos meus pensamentos estava a imagem da Moça de Turbante Azul. E, segundo a descrição de Zeg, ela só poderia viver num lugar como Saturno. Mas pelo que vi, em Saturno todos tinham crânio, ou algo muito parecido com isso, não tinham vagalumes no lugar do cérebro, não. Haveria um lugar melhor do que lá para estar? E por que Zeg hesitou em me dizer o endereço da Moça de Turbante Azul? Eu acho que sou um bom amigo, e eu ficaria feliz em dividir pensamentos com ela. Tenho uns que me parecem bem bons… Mas, afinal, deve haver tantos cantos no Universo, lugares melhores e lugares piores. Lugares longínquos e próximos. Existe tanta coisa para aprender, tantos lugares a visitar, há muito o que ver e sentir. E, como as coisas não acontecem de uma vez só, se não houver paciência, não haveria maneira de aproveitar tudo o que existe.

- Sobre o que está refletindo, viajante? – Cutucou-me Lui.

- Sobre ter paciência.

- Esse é um pensamento que me parece bom, posso provar um pedaço dele?

- Ah, sim, não me importo em dividi-lo.

- Pois bem, a paciência é um exercício muito sábio, viajante. Conte-me o que você pensou. – Lui ergueu uma sobrancelha, colocou uma das mãos em volta da orelha, como se ampliasse sua zona auditiva, e até virou um pouco de lado.

- Eu pensei que se não houvesse a paciência, não haveria uma maneira de aproveitar tudo o que existe, porque não tem como tudo acontecer ao mesmo tempo.

Lui refletiu por uns segundos, então disse:

- Muito obrigado pelo seu pedaço de pensamento, viajante. Estava ótimo. Você tem tido bons pensamentos!

- É, devem ter sido os eletrodos daquela máquina resolvedora de dilemas do Centro Cósmico de Recuperação, aquela vez… Desde então, sinto-me um pouco mais preparado para enfrentar as bifurcações elementares da vida. E acredito que tenho sido mais paciente enquanto aguardo por elas.

Galaxala olhava-me atentamente. Baixou um pouco o olhar, olhando para seu planeta ao redor, até que ergueu os olhos até mim novamente, dizendo:

- A razão universal é a multiplicar-se e dividir-se, viajante. As coisas tornam-se duas e também podem tornar-se uma. Até a vida, as pessoas inclusive. Tudo que era um pode tornar-se dois, inclusive os caminhos. – Falou-me com carinho a dona dos olhos vermelhos mais lindos do Universo, a menina que aprendi a amar por tamanha inocência e sabedoria.

Um silêncio pairou dentro da bolha. Enquanto eu olhava para a pequena menina de cabelos e olhos vermelhos, para Zeg e Lui, com seus sapatos prateados e roupas brilhantes de cetim, percebi que uma parte de mim, mesmo que a contra gosto, preparava-se para o momento de nossa separação.

- Eu não quero deixar vocês! – Era a mensagem contida dentro do nó em minha garganta.

- Nós nunca vamos nos deixar.  – Disse Zeg.

- Estaremos juntos em Andrômeda. – Completou Lui.

- Mas e depois?

- O depois vem depois do agora, e como eu não estava no depois, apenas estou no agora, não posso lhe dar uma certeza sobre isso, meu caro viajante. O tempo é a casa da paciência, e nem ela sabe o que há nos cômodos que ficam no lado do amanhã. – foi o que Zeg me disse enquanto repousava uma de suas mãos em meu ombro.

- E Galaxala?

- Eu, meu amado viajante, eu posso ficar bem pequena, se você quiser que eu seja pequena. E posso morar no bolso da sua camisa.

- No bolso da minha camisa? E irá comigo pra qualquer lugar?

- Sim, lá nos fundos do bolso da sua camisa há um lugar que eu gostaria muito de morar.

Olhei para o bolso da minha camisa, e levei minha mão direita até ele, foi quando senti que algo pulsava lá dentro. Meu coração.

- Tá vendo? Eu aposto que há várias pessoas que você gosta aí dentro. E, pelo barulho, parece que estão dando uma festa. Deve ser um lugar bom para se morar. – Ela me olhava com seus olhos vermelhos, e seus bracinhos pequenos se abriram, pedindo-me um abraço.

Ajoelhei-me no chão mole e instável da bolha, e minha pequena saturniana caiu sobre meu peito, sendo acolhida pelos meus braços, bem junto do coração. De olhos fechados, senti que Zeg e Lui entraram no abraço também. Caímos todos uns sobre os outros, devido à instabilidade da bolha, que era também muito lisa, e a emoção começou a se transformar em riso. No chão, outra vez, desabafei:

- Esta viagem é a melhor coisa que poderia ter me acontecido.

- Isso mesmo, viajante, viajar é muito bom. A realidade é delimitada por várias paredes, feitas de palavras. É preciso que essas paredes sejam ultrapassadas às vezes para que possamos ter uma melhor noção sobre a existência. Uma viagem é isso. – Ensinou-me Zeg. Zeg era cheio de palavras difíceis, e ele me dizia coisas que eu, muitas vezes, só entenderia mais tarde.

- Falando em paredes, meus amigos bolhosos, admirem essa linda parede contra a qual vamos bater… – Observou Lui.

- Oh, minha nossa, é o Palácio de Yyon! E estamos indo direto para aquela torre! Se a bolha estourar, vamos cair! O que faremos agora, Galaxala? Estou com medo!

Com muita calma, ela colocou as mãos sobre o rosto e disse:

- Primeiro, vamos fechar os olhos…

[continua...]

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A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. XII

A Moça do Turbante Azul

Dentro da bolha, planamos calmamente sobre algo que palavras humanas não conseguem descrever muito bem. Os meus sentimentos naquele momento eram um misto de várias sensações maravilhosas junto com um espanto gigantesco. Senti minha mente expandir em cada passagem da viagem, a cada experiência que passamos juntos, enquanto desbravamos os escuros caminhos do Universo. Porém, o colorido de Yyon promovia explosões dentro meu cérebro, e eu estava sendo transformado pela beleza. Crescia em mim a capacidade de ser feliz, eu sentia isso enquanto planávamos em direção ao palácio, que ficava cada vez maior, ao longe. Zeg e Galaxala conversavam, sentados no chão da bolha…

- Senhor Zeg, quando é que o senhor visitou o nosso planeta? – Perguntou Galaxala.

- Ah, minha cara menina de cabelos vermelhos, eu estive aqui uma vez enquanto eu estava dormindo, sonhando com  a Moça de Turbante Azul.

- Uma moça de turbante azul?

- Sim, ela usava um turbante azul na cabeça para proteger seus pensamentos.

- Mas e como é que o senhor veio parar aqui? – Questionava-se Galaxala.

- É que ela tirou o turbante para mim. E ela não tinha cabelos, nem couro cabeludo, crânio muito menos… Nem cérebro ela tinha. O turbante repousava sobre um milhão de pensamentos que mais pareciam vagalumes, de várias cores, atiçados, contra um poste de luz. Esses vagalumes saíram da cabeça dela, e voaram até mim, cercando-me de pensamentos que, antes não eram meus, mas aí penetraram pelos poros da minha pele, e passaram a me pertencer também.

- E essa moça era bonita, senhor Zeg?

- Muito bonita, Galaxala. A Moça de Turbante Azul mais linda com a qual eu pude sonhar um dia. E ela me emprestou os seus pensamentos, que ela protegia com muito carinho sob o turbante, e era tudo o que ela tinha. Em um desses pensamentos estava Saturno. E eu vim até aqui com ela, passeamos pelos jardins vermelhos de Addox, visitei os prédios transparentes de Yyon e fomos a vários outros lugares também…

- Mas como isso é possível?

- Minha querida, você me parece jovem demais para entender a força que os pensamentos têm. Eu já fui a diversos lugares, pois eu não estou mais preso ao lugares a que meus pés podem me levar. E quando as pessoas juntam seus pensamentos, podem ir cada vez mais longe.

- E o que aconteceu com a Moça de Turbante Azul?

- Nada aconteceu a ela. Ela continua cheia de pensamentos.

- Mas onde ela está?

- Em todo lugar.

- Mas por que eu não a vejo?

- Porque está aqui – e Zeg apontou para a própria cabeça – e está comigo a todo o tempo. Essa viagem não seria possível se não estivéssemos juntos.

Lui ouvia a conversa enquanto observava os jardins vermelhos de Addox, logo abaixo de nós, e acrescentou:

- Quando a gente se permite, os nossos pensamentos podem sair de nós também. Diferentemente da Moça de Turbante Azul, não saem em forma de pequenos vagalumes brilhantes. Mas podem sair nas nossas palavras. Seria mais fácil se apenas tirássemos um turbante e eles saíssem para tocar as pessoas. Mas nascemos na Terra, e lá as coisas são assim… Precisamos traduzir os pensamentos em palavras, o que não é muito fácil.

- Ah, então a Moça do Turbante Azul não era da Terra?

- Não. Ela veio de um mundo muito mais bonito. Um mundo muito diferente do nosso. Um lugar em que tudo é possível, onde tudo pode melhorar, mesmo que já esteja bom. Onde ela mora não há medo, não há tristeza, não há egoísmo nem maldade.

- E que lugar é esse? – Perguntei, já que a conversa dos três estava me intrigando tanto.

- Um lugar que você conhecerá um dia, viajante. Em breve… – Respondeu-me Zeg.

[continua...]

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A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. XI

Rumo ao Palácio de Yyon

Quando a porta da nave se abriu e revelou aquele mundo aos meus olhos, senti uma brisa fresca e o aroma de uma civilização completamente distinta da minha. O Centro de Aterrisagem Interespacial era um campo com várias plataformas redondas, onde algumas naves repousavam, perto da nossa. Várias categorias de naves espaciais, grandes e pequenas. Mais ao longe havia um enorme disco voador acinzentado, com imensos propulsores, muito grandes, com um cinturão de janelas na porção central. Algo que eu só havia visto em filmes de ficção científica e no meu imaginário surreal, entre um sonho e outro, nas noites que dormi na Terra.

Como se eu estivesse em câmera lenta, desci da nave, enquanto alguns funcionários vestindo coletes acenavam para que deixássemos a pista de aterrisagem. Vilili desceu na frente, seguido por Galaxala. Atrás de mim, Zeg e Lui, que pareciam não estarem surpresos com toda aquela maravilha.

Outra coisa que me surpreendeu de imediato, logo enquanto eu descia da nave, foi o horizonte. Lá em Saturno, o Horizonte não é delimitado por uma linha, como na Terra, pois em vez de ser convexo, o planeta é côncavo. Então, ao mesmo tempo, muita coisa bombardeou a minha visão. Cidades e mais cidades eram visíveis, com alguns espaços desérticos entre elas, até que iam se misturando umas às outras, desfocando-se à distância e encurvando para cima. Por todos os lados era possível ver o imenso planeta, que era plano, sem montanhas ou vales, parecia uma imensa bola, cujo tamanho doía aos olhos, era difícil de entender que, de fato, eu estava dentro de Saturno, rodeado de extraterrestres e feliz por isso.

Quando chegamos a uma enorme abóbada transparente, composta de triângulos, alguns saturnianos, que pareciam guardas, nos pararam. Galaxala nos traduziu as falas deles.

“Saudações, viajantes. Em nome da rainha Mydda eu, da Agência de Segurança Planetária, dou as boas vindas a vocês. Por favor, aguardem até preencherem o cadastro, nesta sala. Vocês estão convidados para o comitê de boas vindas no palácio de Yyon, logo mais às 7300 horas.”

- Sete mil e trezentas horas? – Indaguei curioso sobre o sistema de tempo.

- O dia aqui é composto de 10656 horas. – Explicou-me Galaxala.

- Isso significa que uma farmácia 24 horas não teria serventia alguma aqui, não é?

- O que é uma farmácia? – Perguntou-me ela, curiosa…

- Uma farmácia é como se fosse um planeta, só que não flutua e está cheia de produtos químicos em seu interior, que servem para diminuir o sofrimento dos terráqueos. – Expliquei.

Paramos por um instante na imensa sala de vidro, em um silêncio típico de quem espera ser chamado por alguém, até que uma “mulher” saturniana veio até nós.

“Nave de placa 010011EKX, por favor.”

- É a nossa nave, aventureiros. Vamos lá! – Falou Vilili, levantand0-se, empolgado, abotoando o casaco.

Assinamos os documentos num imenso balcão, e rapidamente fomos levados a uma imensa plataforma de ondem saíam gigantescas bolhas de sabão, que, ao vento de cinco imensos ventiladores, nos transportaram até o Palácio de Yyon.

- Galaxala, muito me agrada a ideia de sobrevoar essa linda cidade dentro dessas bolhas… mas, elas suportarão nosso peso?

- Ah, sim, senhor viajante, elas são uma mistura de um forte sabão de Eta Carina misturadas com um Aumentador de Tensão Superficial, uma mistura que forma uma película altamente resistente. Planar dentro delas é um meio de se locomover sem poluir o meio-ambiente.

- Viajante, você sabia que a poluição dentro de Saturno é zero? – Indagou-me Zeg.

- Na Terra, já tentamos algumas vezes convencer as pessoas de que a poluição não traz felicidade… – lamentou Lui a Galaxala – mas em nosso planeta as pessoas dão mais valor a pedaços de papel do que ao próprio ar que respiram.

- Puxa! Então esses papéis devem ser muito importantes… – conjecturou ela.

- Eles não têm serventia alguma fora da Terra – concluiu Zeg, enquanto admirava as bolhas gigantes que saíam da enorme máquina.

Entramos onde descobri ser a Estação de Emissão de Transportadores. Lá, fomos encaminhados a um elevador, que subiu por muito tempo, em alta velocidade, dando até um nó no estômago. Chegando à parte de cima, seguimos as flechas e chegamos a um trampolim, de onde deveríamos pular em uma pequena piscina, repleta de um líquido transparente e um pouco mais viscoso do que a água normal. Pulamos os quatro, Vilili não foi conosco… Nos despedimos dele com um abraço apertado. Quando o abracei, ele me deu um conselho ao pé do ouvido:

- Viajante, eu já viajei o Universo quase todo. Há milhares de anos estou levando pessoas perdidas a um chão mais sólido onde pisarem. Mas de nada adianta conhecer diversos lugares se não conhecemos a nós mesmos. E há lugares lindos que você precisa visitar dentro da sua própria cabeça… Boa sorte.

Ele nos disse que sua missão terminava quando as pessoas encontravam seus caminhos outra vez. E ele havia nos trazido até ali, de onde seríamos levados até Mydda, para concluir uma etapa importante na nossa jornada pela galáxia. Foi quando uma voz robótica avisou:  ”Atenção, preparando para a sucção. 5, 4, 3, 2… 1!” A parte de baixo da piscina se abriu e fomos sugados para dentro de um estreito cano flexível, com paredes macias feito gel, e saímos pela outra extremidade dentro de uma imensa bolha, a muitos metros de altura.

Mais uma vez, eu experienciava sensações que jamais poderia imaginar enquanto estava preso à Terra. Lá de cima, fomos empurrados por cinco ventiladores de tamanho quase indescritível, presos num paredão maior do que dez Titanics. Quando a bolha se desprendeu do imenso aro, na ponta do cano, houve um solavanco e caímos sentados na superfície gelatinosa da bolha, que tomou velocidade, e rolava abaixo de nós, lisa como uma lesma de vênus – como nos descreveu Zeg – em todos os sentidos. Balançávamos ao sabor do vento, que nos empurrava ao horizonte sem fim, dentro de Saturno. Abaixo de nós, a maravilhosa e psicodélica cidade de Yyon, com lagos coloridos, vários, um de cada cor. Muitas construções transparentes, cápsulas voadoras voando em todas as direções e mais umas três bolhas, como a nossa, planado suavemente. Ao longe, um conjunto de torres muito altas se destacava no meio da paisagem: O Palácio de Yyon. Atrás dele, luzes de cidades distantes pareciam as estrelas quando vistas da Terra, e improvisavam um belo céu. Todos nós, deitados de costas na grande bolha, esgorregávamos vez por outra e colidíamos uns nos outros.

- Eu estou amando o seu planeta, Galaxala. Gostaria muito de morar aqui com você, mas preciso ir até Andrômeda, tenho um longo caminho com Zeg e Lui. Eu gostei tanto daqui que já não quero mais voltar. Esse ar diferente me faz muito bem. Gosto das construções, das cores, do horizonte sem fim, da antigravidade…

- Espere até conhecer a nossa rainha, viajante… Ela é a criatura mais sábia da Via Láctea.

[continua... ]

Se você quiser, pode ler os capítulos anteriores aqui. ;)

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A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. X

A Aterrisagem em Saturno

Cochilei por uns intantes após ter me perdido em dois mil e trezentos pensamentos a respeito da humanidade. Acordei num sobressalto, quando a nave começou a balançar, como se estivéssemos dentro de uma batedeira.

- O que é isso, Vil? Socorro! Vamos todos morrer???

- Segurem-se viajantes, e coloquem os cintos. Estamos chegando em Saturno. – Contou-nos o Sr. Vilili, com um sorriso no rosto, apoiando-se sobre o painel de controle.

Segurei-me num apoio, na parede da nave e olhei pela janela, onde a menina ruiva admirava-se.

- Minha casa! – Galaxala olhava pela janela com os olhos brilhando, enquanto o lindo planeta avermelhado e gigantesco ia chegando cada vez mais perto.

Zeg, em seu sono profundo, babava sobre a sua blusa azul cintilante, pendurado pela cintura, no cinto de segurança que Lui  rapidamente apertou. Nem os saculejos de uma aterrisagem em Saturno foram capazes de acordá-lo. De fato, ao longo de toda nossa aventura à pé pelo Universo, depois de duas passagens pelo Centro Cósmico de Recuperação, tudo o que passamos na Nebulosa Errante do Candelabro, estávamos exaustos e com muito sono acumulado. Lui era um ótimo ator, e conseguia fingir muito bem que estava acordado, apesar de que era óbvio que estivesse dormindo, mesmo de olhos abertos e cantarolando.

Galaxala estava muda, apenas a admirar seu lindo planeta. Sobrevoávamos os lindos anéis de saturno, onde várias criaturas bizarras, magrelas, mas muito atléticas, apostavam corrida. Foi quando avistei imensos braços, compridos e finos, saindo da poeira laranja que envolvia o planeta.

- O que são aquelas projeções que estão vindo ao nosso encontro, Vil? – Indaguei com medo da resposta que eu obteria.

- São os PAA, Pseudópodos de Apoio à Aterrisagem. Uma tecnologia saturniana que dá auxílio às naves espaciais que chegam ao planeta, esses prolongamentos vêm em direção à nave e nos auxiliam a chegar em segurança ao chão. É um abraço caloroso de boas vindas.

- Incrível!

O Sr. Vilili desligou então os motores e planamos em ponto morto enquanto aquelas imensas estruturas, que mais pareciam nuvens vermelhas e compridas, chegavam perto de nós. Eu, em toda a minha vida, jamais fui capaz de imaginar ver algo tão grande e majestoso. Aquele planeta era algo que emocionava a gente só por existir. Pela pequena janelinha da nave, o que eu podia ver era apenas uma pequena parte, ainda, de tudo que havia naquela gigantesca massa redonda.  Parecia uma sobremesa infinita, uma mistura de tons avermelhados, laranjados e amarelos. E a sensação de estar sendo abraçado por Saturno, pra mim, tão pequeno perto de aquilo tudo, fez com que eu chorasse de emoção. Galaxala e Vil também admiravam o grande fenômeno com lágrimas nos olhos. Então, nossa pequena nave foi envolta por uma nuvem rósea e fomos ganhando velocidade. Viajamos durante um bom tempo envoltos naquela nuvem de gases até que adentramos um imenso túnel de pedra, que parecia infinito, muito escuro, onde pairou um silêncio muito diferente. Estávamos em alta velocidade, eu sentia o chacoalhar da nave, mas um som baixo e grave pairava no ar tomando o lugar do usual silêncio que costumávamos ouvir. Galaxala colocou a mão sobre o meu ombro e disse:

- Querido viajante, não se assuste, mas meu planeta é um pouco diferente do que você está acostumado. Não é melhor, nem pior, não me interprete mal. Neste momento, estamos debaixo do solo de Saturno, que fica logo abaixo da camada de gases. Este planeta é um planeta invertido. Nosso céu fica no centro, e o globo é delimitado pelo solo. No centro do planeta há uma concentração de antigravidade, que ao invés de nos puxar para o centro, como na Terra, nos mantém presos ao redor dele. Demora um pouco, mas você se acostumará. Há alguns túneis como este, que dão entrada ao nosso mundo, mas eles ficam escondidos por debaixo dos gases vermelhos. Por isso, criamos a tecnologia dos PAAs, há alguns séculos atrás, para que as naves possam achar o caminho certo com facilidade.

Eu estava deslumbrado, nunca, em toda a minha vida, imaginei um planeta invertido. Era como uma bola de futebol, com gás no centro, onde as cidades eram construídas na concavidade de dentro. À noite, em vez de estrelas, o que víamos eram as luzes das cidades que ficavam do outro lado do planeta. A imensa concentração de antigravidade, no centro de tudo, emitia luzes coloridas, fluorescentes, que refletiam-se nas construções da cidade de Yyon, onde aportamos, durante o dia.

Zeg e Lui acordaram, enfim, enquanto chegávamos ao solo de Yyon. A aterrisagem em Saturno é invertida. Fomos ejetados do solo, e arremessados a uns trinta metros do chão, quando Vil ligou os motores e foi, lentamente, pousando.

- Lui, Yyon está ainda mais bela de que quando deixamos Saturno, não está? – Perguntou Zeg, esfregando os olhos, ainda sonolento, a admirar pelo vidro da pequena janela aquela loucura colorida e movimentada que se revelava do outro lado.

- Uau, Zeg! Esta cidade é mesmo espetacular! Mal posso esperar a cerimônia de recepção da rainha Mydda.

- Cerimônia, recepção, vocês já estiveram aqui antes? – Eu não conseguia acreditar ou entender como é que aqueles dois, que deveriam ter vinte e poucos anos, já haviam estado em Saturno anteriormente. Como e por quê? Era eu, então, o único novato nessa história de viagem espacial?

- Querido viajante, nossa rainha, Mydda, saúda pessoalmente todos os seres extra-saturnianos que chegam ao nosso planeta e ela tem um jeito muito próprio de dar boas vindas. Logo que desçamos da nave, seremos levados ao palácio de Yyon, onde ela mora. – Explicou-me, calmamente, a menina.

Pela janelinha da pequena nave, eu avistava a cidade mais moderna que já visitei. Os prédios eram feitos de uma matéria transparente, semelhante ao vidro, que refletia as inúmeras cores emitidas pela poderosa antigravidade de saturno. Grandes edifícios de várias formas geométricas, pequenas naves que planavam a alguns metros do chão, como se fossem carros voadores. Árvores coloridas, muito distintas das nossas e os saturnianos, muito magros e altos, ruivos, sorridentes.

Fui golpeado por uma felicidade imensa assim que a porta da nave se abriu. Se eu pudesse, teria ficado lá e jamais voltado para a Terra. Porém, descobri mais tarde que existem ligações invisíveis e misteriosas que conectam os seres humanos uns aos outros. E eu sentiria muita falta disso, mesmo vivendo no paraíso escondido de Saturno.

[continua...]

Você pode ler a história na íntegra aqui.

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A Vida Definida

Era uma vez duas células. E elas eram muito distintas uma da outra. Uma tinha uma cauda enorme, comprida, que balançava pra lá e pra cá. A outra era redonda feito uma bola, toda peluda e preguiçosa, mal saía do lugar. Quando se encontraram, pararam por um instante, perguntaram-se se um dia dariam certo juntas, se seriam capazes de se unir perante todas aquelas diferenças. Nunca tinham se visto antes, mas sabiam de alguma forma que foram feitas uma para a outra.

- Esse seu rabo enorme me incomoda, não sei se serei capaz de suportar você balançando ele perto de mim.

- Eu não pedi para nascer com rabo – disse – mas sem ele eu não teria sido capaz de chegar até aqui. Se eu não tivesse um rabo, não teria impulso para transpor tantos obstáculos e chegar até você.

- Mas a gente veio de lugares tão diferentes, você foi criado de uma maneira muito distinta da minha…

- Se eu fosse criado aqui ao seu lado, do mesmo jeito que você, eu não poderia trazer coisas diferentes, cromossomos distintos, para lhe acrescentar.

- Ah, mas quem me garante que você tem os cromossomos certos?

- Eu garanto a você! Pois se cheguei até aqui, é porque eu sou a célula certa. E quero levar uma vida diplóide com você.

Aí então, duas células se unem sem saber que o pouco que tinham, separadas, tornaria-se algo muito maior quando juntas. Os cromossomos, que ambas traziam, multiplicaram-se em milhões deles. Com o tempo, percebem que todas aquelas diferenças que exibiam uma da outra nada mais eram do que as próprias ferramentas que as uniram e, mais do que isso, foram fundamentais para que pudessem se tornar uma só. De uma maneira mais ou menos poética, nossa vida começa com uma declaração de amor entre duas células, pela junção de duas coisas completamente distintas. É fundamental atentar para o fato que, depois que estão juntas, elas se dividem. Abrem mão da própria arquitetura para integrarem-se uma à outra. Esse momento efêmero, quando antes eram duas e tornam-se uma só, por fim acaba em que se dão duas células novamente. Neste ponto, depois que renovaram-se juntas, dividiram o que tinham, podem, então, multiplicar-se. Não antes de se somarem ou se dividirem, é importante ressaltar.

Esse resultado matemático e lógico pára mais ou menos por aí. Quando todo o resto passa a ficar cada vez mais complexo e curioso. Talvez por isso seja a parte mais bonita. Células se tornam um embrião, depois um feto, um bebê, uma criança, um adolescente, um adulto…

Adulto é uma palavra que vem do latim adultus, que designa aquele que completou seu processo de maturação. É aquele que completou a formação de sua personalidade e consciência. Só estaremos completos mesmo quando morrermos, porque a cada dia vamos acrescentando novas frases à nossa história, novas memórias, novas ideias à nossa consciência. Mas o adulto é que aparece ao final do processo em que, da mesma forma que acontece na célula, adquirimos nossas peculiaridades, nossas ferramentas para passarmos às próximas fases.

Muitas coisas fazem parte da criação da consciência de um adulto: família, profissão, amigos, experiências pessoais, traumas, relacionamentos, dificuldades, superações, conquistas, fracassos, dores, alegrias, filmes, livros, amores. Tudo o que acontece com alguém é armazenado no cérebro de uma maneira primária; fica lá por um curto pedaço de tempo e, se a nossa consciência prévia, construída ao longo das experiências anteriores, disser que deve ficar lá, essa experiência nova fica. Se não, ela é apagada pra sempre, ficando no inconsciente, que é uma espécie de arquivo morto na nossa cabeça. As emoções que ficam guardadas serão os parâmetros utilizados por nós para julgar as experiências que estão por vir. Por isso, a maneira com que reagimos frente às diversas situações a que somos expostos é tão importante: porque ela será arquivada na sua história de vida. E fará parte de você no futuro.

No futuro do adulto vem a velhice. A velhice é o momento em que suas células estão cansadas de produzir proteínas, estão danificadas devido às tantas agressões a que são expostas ao longo da vida. Já fica difícil produzir boas proteínas, fica complicado para que se dividam da maneira certa. Assim, como o nosso corpo é feito de células, ele começa a transparecer que aquela pessoa já está há tempos aqui. O corpo, assim como uma casa, abriga nossa consciência por determinado tempo. Até o momento em que não consegue mais abrigá-la, o momento da grande separação.

Começa com uma pequena união e termina com uma grande separação. Dura o tempo de você descobrir o que é a amizade, o que é a alegria, a tristeza, a vitória, a derrota, a felicidade e o amor. A vida é esse curto espaço de tempo definido pelo momento em que você permanece no planeta Terra, desde uma pequena união até uma grande separação, não é tão difícil definir o que ela é. A vida é uma palavra curta.

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Tia Marjorie

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Todo mundo tem uma tia meio descompensada. A tia Marjorie completa todos os requisitos necessários para ser classificada como maluca, anormal, ilegal, macumbeira, muambeira e outros adjetivos relacionados à esquisitisse própria das tias que bebem conhaque às dez da manhã.

- Levei sorte, das minhas irmãs uma se chama Gérbera e outra Margarida. Deus me livre ter nome de flor, tenho alergia, olhe só, espirro só de pensar em flor. Por isso, não visito minhas irmãs. Elas me dão alergia, espirro feito uma condenada e, você sabe, tenho enfisema, começar a espirrar atrapalha muito a minha respiração. Cof, cof. Alcança um cigarro dali, filho, fazfavor? Obrigada.

Tia Marjorie é a mais velha de três irmãs, nascidas nos anos 40. Minha mãe, Margarida, cursou matemática e deu aulas até pouco tempo, já está aposentada. A tia Gérbera casou-se com um embaixador que morreu muito cedo, vive de pensão até hoje, faz uma plástica por semana e vai ao salão três vezes por dia, mais ou menos.

- Na vida a gente não precisa de muita coisa… Olhe só pra mim, quando completei 16 anos me casei com o Presidente (e apontou para a garrafa de conhaque, sobre a mesa). Não tive filhos, mas tive muitos gatos, que me distraíam no fim do dia. Dentro da minha casa, de ser humano basta eu. Em 67 anos, aprendi muito sobre música, sobre literatura, culinária, bordado, macumba, carteado, mas olhe, gente é uma coisa difícil. O isqueiro está aí na mesinha, meu filho?

Eu venho visitar a tia Marjorie pelo menos uma vez por semana. Ela diz que tem enfisema, mas na verdade ela tem câncer. Todo mundo na família sabe disso, mas ninguém tem paciência com as grosserias dela, por isso ninguém vem visitá-la. Além do câncer no pulmão ela está no começo da doença de Alzheimer, o médico disse. Está tomando remédios para isso, mas deveria parar de beber o que, para ela, a levaria ao suicídio.

- Eu sou uma mulher fiel. Jamais traí o Presidente com qualquer outro. Se tem uma coisa que eu levo em consideração nessa vida é a minha honra. Minha honra está mantida até minha última mordida. Eu mordo, mordo sim. E arrancaria de pedaço de qualquer homem que chegasse perto de tirar a minha honra. Sou feminista, e sou desde que nasci. Queimei um sutiã na sala de parto, enquanto me cortavam o cordão umbilical.

Nunca se casou, jamais eu soube que teve algum namorado. Minha mãe diz que nenhum homem suportaria viver do lado da tia Marjorie. Na verdade, eu acho que ela é que não suportaria viver ao lado de pessoa alguma. Há pessoas que não foram feitas para viver para fora do portão, para se misturar à espécie. E o pior dia pra tia Marjorie era o dia de ir ao mercado. Então, Juraci, a empregada, fazia esse serviço para ela.

- Não confio na empregada. Da última vez, conferi na nota e me faltaram cinco reais de troco. Pensa o quê? Mandei embora no mesmo dia. Mandei que juntasse suas coisas, pegasse o que era dela, lavasse a louça do almoço e que desse o fora daqui. Aí ela arranjou uma desculpa falando que gastou cinco reais na passagem de ônibus. Eu não mandei que fosse de ônibus! Era para ter ido a pé. Oras! Rua!

A Juraci foi a nossa última tentativa de arranjar uma empregada para cuidar da tia; depois de sete tentativas frustradas decidimos que não dava mais. Queriam mandá-la para um asilo, mas eu me prontifiquei de vir até aqui e ajudá-la nas tarefas da casa uma vez por semana. Não havia muito mais o que fazer além de lavar alguns pratos e passar uma vassoura na casa. As roupas dela eu levava até a lavanderia e eles entregavam em casa.

- E sabe, meu filho, eu andei reparando. Estão me faltando quinze blusas! Da última vez que você levou para a lavanderia me devolveram apenas três. E eram dezoito! Eu contei uma a uma, dezoito. E eu não quero mais que mande as minhas roupas íntimas pra essa lavanderia, não. Aquele entregador tenho certeza que é macumbeiro, vai ainda me fazer despacho com as minhas calcinhas, me amarrar no amor. Deus me livre!

Desde o começo do ano, a doença da tia Marjorie foi piorando. Desconfia de tudo e de todos, inventa histórias mirabolantes e sua memória está cada vez mais fraca.

- E você, aí, quem é?

- Eu sou seu sobrinho, tia, o César.

- Uhm, sei… Então me alcance um daqueles palitinhos… um… como diz? Um… Aquele ali ó… Um…

- Um cigarro?

- Isso.

Alcancei o cigarro a ela, acendi. O silêncio pairou no ar por alguns minutos, até que anunciei que estava na hora de eu ir para casa. Ela me olhou com uma cara séria e calma, e disse:

- Olhe, meu filho, poucas coisas me agradam tanto quanto um tchau. A porta é logo à esquerda, depois do corredor. Por favor, não roube nada no meio do caminho. Antes de ir, encha o meu copo aqui que eu quero ter uma conversa séria com o Presidente. Vamos tratar de política interna. E você, não volte do exílio antes de uma semana. Dá um tempo!

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Aunt Marjorie

Everyone has a decompensated aunt. Aunt Marjorie fulfill all the necessary features to be classified as crazy, abnormal, ilegal, voodoo maker and another adjectives related to the peculiarity of those aunts who drink brandy at 10 am.

- I’m a lucky woman. One of my sisters is named Daisy and the other, Gerbera. God save me from flowers names! I got allergy, look at me, I sneeze if I actually think of flowers. That’s why I do never visit my sisters. They give me allergy, I sneeze as a whale and, you know, I got emphysema, start sneezing turns it hard to breathe. (Coughing) Please, son, can you hand me a cigarette? Thanks.

Aunt Marjorie is the oldest of three sisters, born at 40’s. My mother, Daisy, studied Maths and was a teacher until few time ago. She is already retired. Aunt Gerbera was married with an ambassador, who died very soon, and she lives of his incomes until today, and makes a plastic surgery a week and goes to the coiffeur three times a day, at least.

- In life we don’t need so many things. Look at me, when I was 16 I married The President (and pointed to the bottle of brandy, on the table). I didn’t have children, but I had lots of cats whose distracted me in the end of the day. Inside my house, the only human being is me. That’s pretty enough. After 67 years, I learnt lot about music, about culinary, needlework, playing cards, voodoo but, see, people is a hard stuff. Is the lighter on the table, son?

I come to visit aunt Marjorie at least once a week. She says she has emphysema, but actually she got cancer. All the family know about that, but anyone got patience with her, that’s why they never come around. Besides cancer, she started to present some signs of Alzheimer disease since last year, said the doctor. She is taking the medicine for that, but should stop drinking what, for aunt Marje, would drive her to suicide.

- I’m a loyal woman. I haven’t cheated The President with any other. If there’s a thing I take serious in this life is my honor. My honor is kept until my last bite. I bite, of course I bite. And I would take a piece with my own teeth of any man who could take my honor away. I’m a feminist. And I am since I was born. I burnt a bra at the delivery room meanwhile they cut my umbilical cord.

She never got married. I haven’t noticed any signs or heard any story about a boyfriend or an affair of her. My mom says no man would bear aunt Marjorie. Indeed, I think that she is the one who couldn’t stand any other person closer than 2 meters. Some people were not made to join the species. And the worst day to her was the day of going to the supermarket. So, Gloria, the housekeeper, used to do this service to her.

- I don’t trust Gloria. Last time, I saw the recipe and there was five bucks missing. You know what? I fired her at the same day. I said to take her stuff, the few things she had, to wash the dishes and go out from my house. Then she apologized herself saying that the five bucks were spent to pay the bus ticket. I haven’t said nothing about any buses! She should go walking. She stole me. Get out!

Gloria was our last try of having a housekeeper to aunt Marjorie; after seven unhappy attempts we decided that there was no more chances left. They wanted to send her to a rest house, then I decided to give her some help once a week. There was not so many things to do, only sweep the floor and wash a couple dishes. Her clothes, I used to send them to a laundry and they delivered back at home.

- You know, son, I was remarking and there are fifteen coats missing. Last time you sent to the laundry they were eighteen! I counted, eighteen! And I don’t want you to send my underpants to this laundry anymore. That delivery man doesn’t sound me good. I’m pretty sure he is voodoo, and will try to do voodoo jobs with that, will try to “wrap me in love”. Damn it! God save me!

Since the beginning of this year, Marjorie’s disease is getting worst. She doesn’t trust anyone and come up with absurd stories; her memory is weaker and weaker.

- And you, who are you?

- I’m your nephew, Cesar.

- Uhm, ok… So, hand me one of that sticks, the white ones… How do you say? A…

- A cigarette?

- Exactly. A cigarette…

I gave her a cigarette, I lit it up. The silence overwhelmed the place for some minutes, when I said it was time to go home. She looked at me very calm and serious, then said:

- Look, my son, few things please me more than a goodbye. The door is in the end of the corridor, just turn right. Please, do not steal anything in the way out. Before you go, fill in my glass, I want to have a serious conversation with The President. And you, don’t come back from exile at least for a week. Give me a break.

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A Experiência do Vazio

You can see a version of this post in English.

É como se estivesse levitando, nu, numa enorme câmara negra. Parece que o vazio pode ser materializado em uma situação ou objeto, porque é o sentimento do “nada”; há sentimentos e onde eles estão há certas coisas também. Essas coisas estão lá, talvez, para nos permitirem explorar e expressar essa terrível experiência. E eu quase posso tocar o vazio. Ele começa no estômago, aí ascende para a garganta, aí sobe ao cérebro. Através do nervo óptico ele escorrega para os olhos. Então, parece que você engole uma enorme bola de metal, pesada e fria. Depois de dez segundos, você está girando ao redor do seu próprio corpo enquanto tudo à sua volta começa a ficar cada vez mais escuro.

Seus músculos, em alguns segundos, já estão paralisados, mas é possível sentir cada gota da sua consciência, gotejando dentro do espaço vazio do seu crânio, exatamente onde você se encontra agora. É como se fosse uma antropofagia de si, e ao contrário de ir para o estômago, seu ego está agora flutuando onde seu cérebro costumava estar.  E, ironicamente, seu ego tem a forma do seu corpo. Inexplicavelmente, os olhos estão ao contrário olhando para todo esse processo interno.

Lentamente flutuando e girando, esse corpo começa a ficar menor e menor e você não consegue ao menos dizer se é por causa do processo natural do sentimento de vazio ou se está ficando cada vez mais longe de si, perdido nesse tipo de atividade compulsória. E você não é mais capaz de pensar, pois seu cérebro derreteu com o calor do inferno, onde parece que lhe jogaram. Vácuo, nada e vazio: eis o prelúdio do que vem depois da morte se você não foi um “bom garoto”, como eles definem a você na igreja. E, às vezes, um pouco do inferno é originado em vida (ou o que você chama de vida) por nós mesmos. Até os eventos externos que acontecem conosco são o efeito resultante de coisas que trazemos de dentro.

Piora. Como isso é um prelúdio, como evolução desse processo de corrosão há mais elementos, talvez os mais maldosos: os outros. De repente aquele corpo imóvel, flutuante e giratório, que é o seu ego, abre ambos os olhos e aí não é mais capaz de fechá-los.

Aquelas gotas de consciência, que estavam gotejando, param e você não é mais capaz de ouvir o som irritante delas. Isso pode lhe trazer alívio por um segundo, até a hora em que a vista de algo estranho ao ambiente atual aparece em meio ao espaço escuro ao redor: outra pessoa. E outra. Outra. Milhões delas, olhando fixamente para seu ego, desnudo. Aí então elas riem, histericamente rindo sobre os defeitos que possui e apontam para você. Elas apenas param quando, em uma tela, seus pecados são computados rapidamente, com detalhes, para todo mundo ver. Neste ponto você está completamente nu: sem roupas, sem mentiras, sem segredos, sem virtude.  A essa hora, você sente o espaço vazio onde todas as qualidades que tinha, todos os bons sentimentos, amor, cuidado, fé, costumavam ocupar. Então, como você perdeu todas as boas coisas que tinha, torna-se mau. As pessoas não amam mais você. Elas lhe odeiam. Elas querem matar o seu ego, vão destruí-lo.

Há outras fases. É quando seus pecados, erros e defeitos são pregados em você, um a um. Você não é mais capaz de lutar, porque a força é uma virtude que você não tem mais. Apenas é possível sentir, e esses são os últimos sentimentos que irá provar antes de se tornar nada. Finalmente, quando sentir que tornou-se em “nada”, o ar à volta do seu ego se transforma em vácuo e ele explode dentro do seu crânio, eviscerando-se. Aí então você acorda, leva as mãos até os ouvidos, cai de joelhos e chora. Essa é a experiência do vazio. E você ficará olhando para a parede por mais alguns segundos após esse processo.

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Emptiness

This is the original version of the text above.

It’s like we are levitating, naked, in a huge dark chamber. It feels like the emptiness could be materialized in a situation or object, because it’s the feeling of nothing; there are feelings, and where feelings are, are things too. They are there, maybe, to allow us to explore and express this terrible experience. And I can almost touch the emptiness. It starts inside your stomach, than raise to your throat, than up to your brain. By the optic nerve it slides into your eyes. Then, it seems you swallow a big ball made of iron, very cold and heavy. After 10 seconds you are spinning around your own body meanwhile everything around you starts getting darker and darker.

Your muscles, in a couple of seconds, are already paralyzed, but you can feel every single drop of your consciousness, dropping  inside the empty space of your skull, where you are at this moment. It’s a kind of an anthropophagy of the self, and instead of going to the stomach, your ego are now floating where your brain used to be. And, as a joke, your ego has the shape of your body and, unexplainable, your eyes are backwards looking to all of this process.

Slowly floating and spinning, that body starts getting smaller and smaller and you can’t even tell if it’s the natural process of the feeling of emptiness or if you are standing further of yourself, lost in this kind of this non-wanted activity. And you are not able to think anymore, as your brain was melt by the heat of the hell, where it seems you had been thrown.  Vacuum, nothing and emptiness: that’s the prelude of what comes after death if you were not a “good boy”, as they define to you in church. And, sometimes, a little of hell is triggered in life (or what you call life) by you. Even the external events that could happen to you are the outcome effect of stuff you brought from inside.

It gets worst. As it is still a prelude, as an evolution of this process of corrosion there are more elements, maybe the evilest ones: the others. Suddenly that immobile-floating-spinning body, that’s your ego, open the both eyes and then he’s not able to close them anymore.

That drops of conscientiousness that were trickling, they stop, and you’re nomore able to hear the annoying sound. It gives you a relief for a second, until the time the sight of something weird to the current envoironment appears in the black space around: another person. And another. Another. Million of them, starring quietly at you. And, so, they laugh, histerically laughing at your defects and pointing at you. They only stop when, on a screen, your sins start to be quickly computed, lit up in colors, for everyone to see. Then, you’re completely naked: without clothes, without lies, without secrets, without virtue. At this time, you feel the empty space of where all the qualities you had, all the good feelings, love, care, faith, they used to occupy. So, as you lose all the good things you had, you are evil. People do not love you anymore. They hate you. They want to kill your ego, they’ll destroy you.

There are more levels. That’s when your sins, your mistakes, your defects are nailed on you one by one. You’re not able to fight, ’cause strengh is a virtue. You can only feel, and that’s the last feelings you’ll prove before turning into nothing. Finally, when you feel you’re nothing, the air around your ego turns into vaccum and it explodes inside your skull. Then you wake up, put the hands up to the ears, get down on knees and cry. That’s the experience of emptiness. And you’ll be staring at the wall for a few seconds later.

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A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. IX

Galaxala 

(Você pode ler a história na íntegra clicando aqui)

A nave espacial do Sr. Vilili era uma espécie de táxi interplanetário, com cinco lugares. Um ótima ideia para pessoas que podem pagar um taxi interplanetário e melhor ainda para aquelas que sabem da existência deles. Nós, em nossa ignorância terráquea, jamais cogitaríamos que existissem naves espaciais de aluguel, como essa em que estávamos. Sr. Vilili era de um planeta distante, chamado Atmólitos, e veio parar na Via Láctea depois do Grande Êxodo de Atmólitos, ocorrido há dezenas de tempos. Vil, como viemos a chamá-lo depois de certa intimidade, era um velho viajante e levava consigo uma jovem passageira.

Galaxala estava sentada em um dos assentos, que ficavam dispostos em roda, todos voltados para o centro de uma salinha redonda, onde Vil pilotava a nave por telecinese. Os atmolitanos desenvolveram grandes avanços na técnica de mover grandes objetos com a força do pensamento. Dessa forma, o ofício de taxista interplanetário lhes foi muito oportuno, principalmente porque economizavam muito combustível. Galaxala era uma habitante de Saturno, que retornava de suas féiras em Mercúrio, soubemos mais tarde. Ela nos contou que Mercúrio é como se fosse uma grande praia, só que sem mar, e muito, muito quente. Como boa habitante de Saturno, ela era pequena, ruiva, de cabelos bem vermelhos e longos, de pele muito branca. Nem mesmo as fortes tempestades solares eram capazes de bronzear aquela brancura, e ela tinha apenas pequenas sardas no nariz e nas bochechas.

- É que nós desenvolvemos uma vacina contra a radiação solar – ela explicou. – Quando nascemos, recebemos uma vacina contra raios ultra-violeta e contra oxigênio.

- Contra o oxigênio? – Indagou Zeg, num questionamento químico.

- Sim, quando tiramos férias em outros planetas, como a Terra, entramos em contato com esse gás, só que ele é muito tóxico para nós. Por isso, precisamos de uma proteção, senão não podemos desfrutar das belezas daquele planeta.

- Você está nos dizendo que vocês nos visitam, lá na Terra? – Lui perguntou intrigado.

- Ah, sim, muitos de nós até escolheram o planeta de vocês como lar…

Muita coisa parecia fazer sentido na cabeça de Lui, que era ruivo de todos os pelos, desde que nasceu. Uma vez, na escola, ele havia feito uma dissertação criticando a forma com que as pessoas vivem na Terra, falou que não entendia a exploração do homem pelo homem, e que o dinheiro não devia ser tudo na vida das pessoas. Sua professora o reprimiu, e deu um zero bem vermelho a ele. “Em que planeta você vive, Lui?”,disse ela.

No planeta errado! Estava aí, a resposta! Lui levantou do seu assento e abraçou Galaxala veementemente, agradecendo pelas inspiradoras revelações a respeito de sua origem.

Galaxala nos contou a história da dominação Jupiteriana sobre Saturno, que durou cinco milhões de anos. Os saturnianos eram vendidos como escravos em Júpiter, e eram obrigados a chorar, pois de suas lágrimas surgiam os diamantes. Muitos deles foram torturados até a morte para que suas lágrimas se solidificassem e formassem pequenas pedrinhas de diamante. O diamante era vendido para a Terra, onde as mulheres gostavam de usá-los em adornos para o corpo, e para Netuno, onde era usado para fins mais úteis. Essa exploração durou até que a Grande Rainha Mydda construísse os famosos anéis em volta do planeta. Nos anéis, ficavam os grandes soldados, chamados titãs, que protegiam os saturnianos das naves jupterianas. Diz a lenda que o sopro de um titã era capaz de destruir mil naves espaciais. Hoje em dia, reina a paz na Via Láctea e os titãs se aposentaram, há tempos não se ouve falar deles. Com esse plano, Mydda aboliu, há cinco milhões de anos, a escravidão em Saturno. Seu povo hoje é livre de qualquer aprisionamento. Quando perceberam como era boa a liberdade, deixaram que ela adentrasse também à mente, e libertaram-se inclusive dos maus pensamentos. Galaxála nos contou que imaginar sem limites é uma experiência incrível, e que seus conterrâneos tinham uma espécie de fábrica dentro da cabeça, uma verdadeira usina, capaz de gerar conhecimentos em prol da paz, capaz de gerar palavras que combatiam a tristeza. Suas mentes puras de aprisionamentos davam maior amplitude aos sentimentos, pois quando você liberta uma ave da gaiola, ela não voa mais alto e leva beleza a mais lugares?

A sabedoria daquela jovem menina me encantou muito. Seus olhos dourados pareciam guardar muitos segredos.

- Mas pra que servem hoje em dia os anéis de Saturno, Galaxala? – Eis uma curiosidade que eu tinha desde a infância.

- Os anéis, hoje em dia, não passam de uma bela pista de atletismo com vista panorâmica para o Universo. Nós também apreciamos muito os esportes. – Contou-me ela.

Por um momento pairou um silêncio na salinha redonda. Continuei a viagem olhando pela janelinha da espaçonave, onde pequenos asteróides eram vistos de longe… tudo muito escuro, num preto intenso e infinito. Fiquei pensando sobre a tal liberdade dos sentimentos e tive a certeza de que as pessoas do meu planeta ainda não se livraram de alguns grilhões mentais. Se as pessoas realmente dessem a verdadeira dimensão ao amor, por exemplo, não teria por que haver guerra. Amor significa “sentir junto”, aprendi uma vez. Quando a gente ama, a gente sente a dor de quem se fere. Fica triste quando o outro está triste…  Eu voava sobre o Universo, pensando sobre as coisas que aconteciam na Terra.

- Zeg…

- O que foi, viajante?

- O piloto daquele avião, que jogou uma bomba sobre Hiroshima, estaria bem triste se sentisse a dor e a tristeza daquelas pessoas, não estaria?

- É, senhor viajante, com certeza estaria…

- Isso significa que ele não as amava?

Zeg refletiu um pouco, e após um suspiro, disse:

- Por isso resolvemos fugir para Andrômeda, meu caro amigo. É muito perigoso viver no meio de um povo que não consegue amar nem mesmo sua própria espécie.

Zeg estava ocupado lendo seu livro árabe de alquimia, Vil concentrava-se em pilotar a nave. Eu, recostado no vidro da janela, pensava em tudo que Galaxala me contara sobre seu planeta. Encostada no ombro de Lui, a bela menina ruiva adormecera, e deixara em seus lábios um sorriso misterioso daquele que as pessoas felizes têm.

[continua...]

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