A Bolha
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Ainda planávamos e o palácio ficava cada vez maior, ao longe. Os raios de antigravidade faziam reflexos na superície da bolha. Eu, deitado de costas, com as mãos na nuca, olhava para o “céu” de Saturno, observando aquela gigantesca massa multicolorida infinitamente distante, no centro do planeta, emitindo incansavelmente ondas de antigravidade. Era um ponto luminoso do tamanho de uma moeda, mais ou menos, cujos raios mudavam de cor de acordo com o momento. Nos meus pensamentos estava a imagem da Moça de Turbante Azul. E, segundo a descrição de Zeg, ela só poderia viver num lugar como Saturno. Mas pelo que vi, em Saturno todos tinham crânio, ou algo muito parecido com isso, não tinham vagalumes no lugar do cérebro, não. Haveria um lugar melhor do que lá para estar? E por que Zeg hesitou em me dizer o endereço da Moça de Turbante Azul? Eu acho que sou um bom amigo, e eu ficaria feliz em dividir pensamentos com ela. Tenho uns que me parecem bem bons… Mas, afinal, deve haver tantos cantos no Universo, lugares melhores e lugares piores. Lugares longínquos e próximos. Existe tanta coisa para aprender, tantos lugares a visitar, há muito o que ver e sentir. E, como as coisas não acontecem de uma vez só, se não houver paciência, não haveria maneira de aproveitar tudo o que existe.
- Sobre o que está refletindo, viajante? – Cutucou-me Lui.
- Sobre ter paciência.
- Esse é um pensamento que me parece bom, posso provar um pedaço dele?
- Ah, sim, não me importo em dividi-lo.
- Pois bem, a paciência é um exercício muito sábio, viajante. Conte-me o que você pensou. – Lui ergueu uma sobrancelha, colocou uma das mãos em volta da orelha, como se ampliasse sua zona auditiva, e até virou um pouco de lado.
- Eu pensei que se não houvesse a paciência, não haveria uma maneira de aproveitar tudo o que existe, porque não tem como tudo acontecer ao mesmo tempo.
Lui refletiu por uns segundos, então disse:
- Muito obrigado pelo seu pedaço de pensamento, viajante. Estava ótimo. Você tem tido bons pensamentos!
- É, devem ter sido os eletrodos daquela máquina resolvedora de dilemas do Centro Cósmico de Recuperação, aquela vez… Desde então, sinto-me um pouco mais preparado para enfrentar as bifurcações elementares da vida. E acredito que tenho sido mais paciente enquanto aguardo por elas.
Galaxala olhava-me atentamente. Baixou um pouco o olhar, olhando para seu planeta ao redor, até que ergueu os olhos até mim novamente, dizendo:
- A razão universal é a multiplicar-se e dividir-se, viajante. As coisas tornam-se duas e também podem tornar-se uma. Até a vida, as pessoas inclusive. Tudo que era um pode tornar-se dois, inclusive os caminhos. – Falou-me com carinho a dona dos olhos vermelhos mais lindos do Universo, a menina que aprendi a amar por tamanha inocência e sabedoria.
Um silêncio pairou dentro da bolha. Enquanto eu olhava para a pequena menina de cabelos e olhos vermelhos, para Zeg e Lui, com seus sapatos prateados e roupas brilhantes de cetim, percebi que uma parte de mim, mesmo que a contra gosto, preparava-se para o momento de nossa separação.
- Eu não quero deixar vocês! – Era a mensagem contida dentro do nó em minha garganta.
- Nós nunca vamos nos deixar. – Disse Zeg.
- Estaremos juntos em Andrômeda. – Completou Lui.
- Mas e depois?
- O depois vem depois do agora, e como eu não estava no depois, apenas estou no agora, não posso lhe dar uma certeza sobre isso, meu caro viajante. O tempo é a casa da paciência, e nem ela sabe o que há nos cômodos que ficam no lado do amanhã. – foi o que Zeg me disse enquanto repousava uma de suas mãos em meu ombro.
- E Galaxala?
- Eu, meu amado viajante, eu posso ficar bem pequena, se você quiser que eu seja pequena. E posso morar no bolso da sua camisa.
- No bolso da minha camisa? E irá comigo pra qualquer lugar?
- Sim, lá nos fundos do bolso da sua camisa há um lugar que eu gostaria muito de morar.
Olhei para o bolso da minha camisa, e levei minha mão direita até ele, foi quando senti que algo pulsava lá dentro. Meu coração.
- Tá vendo? Eu aposto que há várias pessoas que você gosta aí dentro. E, pelo barulho, parece que estão dando uma festa. Deve ser um lugar bom para se morar. – Ela me olhava com seus olhos vermelhos, e seus bracinhos pequenos se abriram, pedindo-me um abraço.
Ajoelhei-me no chão mole e instável da bolha, e minha pequena saturniana caiu sobre meu peito, sendo acolhida pelos meus braços, bem junto do coração. De olhos fechados, senti que Zeg e Lui entraram no abraço também. Caímos todos uns sobre os outros, devido à instabilidade da bolha, que era também muito lisa, e a emoção começou a se transformar em riso. No chão, outra vez, desabafei:
- Esta viagem é a melhor coisa que poderia ter me acontecido.
- Isso mesmo, viajante, viajar é muito bom. A realidade é delimitada por várias paredes, feitas de palavras. É preciso que essas paredes sejam ultrapassadas às vezes para que possamos ter uma melhor noção sobre a existência. Uma viagem é isso. – Ensinou-me Zeg. Zeg era cheio de palavras difíceis, e ele me dizia coisas que eu, muitas vezes, só entenderia mais tarde.
- Falando em paredes, meus amigos bolhosos, admirem essa linda parede contra a qual vamos bater… – Observou Lui.
- Oh, minha nossa, é o Palácio de Yyon! E estamos indo direto para aquela torre! Se a bolha estourar, vamos cair! O que faremos agora, Galaxala? Estou com medo!
Com muita calma, ela colocou as mãos sobre o rosto e disse:
- Primeiro, vamos fechar os olhos…
[continua...]




