A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. XXI

A Última Fronteira da Galáxia 

Quem olha para fora sonha. Quem olha para dentro acorda.

Carl Jung

Após cerca de dois anos se passarem, deixamos Saturno, a hospitalidade de Mydda e seus súditos. O que era para ter sido uma passagem rápida acabou sendo um longo período de aprendizagem sobre o “mundo, o Universo e tudo o mais”. A expansão mental das ideias quase não coube dentro de nossas cabeças, inclusive achei que Lui, por um momento, estava com uma cabeça enorme, mas era apenas um chapéu esquisito que ele havia comprado. Zeg ampliou e muito sua já inata sabedoria sobre o tudo e o nada e tudo aquilo que realmente importa. Eu continuava sem poder imaginar o que vinha adiante.

Seguimos os três através de uma estação de teletransporte até Plutão onde fica a fronteira final da Via Láctea. Ficaram para trás Vilili, Galaxala e Mydda, seres fantásticos feitos de poeira das mais belas estrelas, dotados de uma sabedoria surreal, de extrema bondade. São alguns dos maiores transmissores de paz para fronteiras além da nossa humilde galáxia. Galaxala, a nossa ruivinha sardenta, já tinha mostrado sinais de que crescia. Foi pedida em casamento pelo príncipe Han Boogie e estava prestes a se tornar a princesa de Kepler 452b, um planeta muito semelhante à Terra. Mydda até hoje e por muito tempo reinará soberana sobre a galáxia, no seu trono invisível, onde coordena os planetas e estrelas por telepatia, com os olhos fechados e suas vestes vermelhas. Vilili se encarrega, principalmente, de socorrer seres desavisados perdidos pelo Universo. Seres que não sabem para onde vão nem de onde vieram, como você.

Seguindo a jornada, após o embarque na Estação Interplanetária de Teletransportes, materializamo-nos em Plutão. Assim que o processo de desmaterialização se revertia, comecei a sentir um frio imenso, que rapidamente me congelou logo que terminei o processo de adquirir meu corpo novamente. Ficamos os três, imóveis e congelados, em uma pequena estação que mais parecia um iglu. Algum tempo depois, uma pequena porta se abriu e um ser gordo, de estatura baixa, peludo como um urso, e vestindo um chapéu de bruxa, de pantufas, nos vaporizou com uma substância que nos fez voltar à vida e readquirir os movimentos. Era ele um dos cinco Malagoplutos, os únicos habitantes que suportaram e sobreviveram à atmosfera fria de Plutão.

– Vistam essas pantufas. – Disse-nos.

Logo percebi uma grande diferença na hospitalidade daquele planeta. O mau humor do malagopluto estava estampado nas rugas de sua face. Colocamos as grandes pantufas especiais.

– Sigam-me.

Saímos daquele iglu e então avistamos, pela primeira vez, Plutão, que mais parecia uma grande bola de sorvete numa geladeira sem luz.

– Vocês estão aqui para ultrapassar a última fronteira da Galáxia. Certo? – Questionou-nos o Malagopluto.

– Sim, precisamos chegar até Andrômeda. Temos uma missão a cumprir. – Disse Zeg.

–  Supondo que – interpelou Lui – uma viagem é uma jornada de um lugar a outro, quanto mais longe vamos, mais nos afastamos de onde saímos. Isso significa que estamos cansados. O senhor poderia nos mostrar a saída logo? Está frio aqui.

– Senhor Malagopluto, perdoe a pressa do meu amigo – amenizou Zeg – mas sinto que estamos prestes a congelar novamente.

– A última fronteira da galáxia está perto daqui. E se vocês congelarem, receberão mais uma dose do Vapor Descongelante de Humanos, seus traseiros estão a salvo. – Bufou.

Andamos por um caminho, pelo qual chegamos a uma caverna no meio de todo aquele gelo. Durante a caminhada precisamos ser descongelados muitas vezes, com um extintor do vapor especial que o Malagopluto carregava nas mãos, ao mesmo tempo que sua cara enrugada exalando mau humor nos mirava sem expressar outra emoção. Para alivio de nossas pobres células, descongelamos todas as vezes e pudemos aguentar os 200 graus abaixo de zero daquele planeta. Na caverna aonde chegamos, à frente de uma fogueira, uma arcaica fogueira comum, estava sentando outro Malagopluto, mas este com uma feição mais serena, que nos recebeu com uma espécie de chá quente, servido em rústicos potes de pedra. Enquanto bebíamos, ele nos recepcionou, contou um pouco da história de Plutão, disse que raramente recebiam visitas, e que, por isso, os Malagoplutos não são muito hospitaleiros:

– Quando nunca se entrou em um rio, é impossível saber nadar. Perdoe nossa incapacidade de sorrir. Estamos acostumados a franzir a testa e tremer de frio. Nossas rugas são marcas do planeta frio em que vivemos. Esta couraça dura, cheia de pelos, é a única pele que suportaria os ventos congelantes de Plutão. E assim, infelizmente, parecemos feras indomáveis, como se fossemos apenas um grupo de plutonianos em extinção, que vivem em cavernas, longe da civilização e do esplendor da Terra ou de Saturno. Mas nosso planeta já teve seus tempos de glória. Mas foi em um passado tão distante que, infelizmente, não vivemos para saber. Tudo o que sabemos sobre nós é o que nos foi contado. E quando sabemos apenas o que nos contam, não sabemos muito sobre nós mesmos, ficamos sabendo, na verdade, sobre quem nos conta. A única maneira de saber sobre a nossa própria história, de onde viemos e para onde vamos, é olhando para dentro.

– Perdoe-me, senhor Malagopluto – Lui estava impaciente por atravessar a fronteira da Via Láctea – eu estou olhando para dentro e bem para dentro desta caverna congelada. Em Saturno pudemos descobrir de onde viemos, sabemos que toda aquela história sem graça sobre a Terra é fruto da ignorância humana, que fomos criados com propósitos inicialmente malignos, mas que somos modificados pelo AMOR e, para onde vamos? Oras, vamos para Andrômeda. Minha história é esta: eu era um ator, eu cansei de viver papéis que não eram meus, de mostrar emoções que não eram minhas, eu cansei de viver em um mundo infeliz. Eu encontrei Zeg, que, conhecendo os mistérios da Astronomia, me trouxe até aqui. E este Viajante, que nos emprestou um candelabro, viaja conosco sem abrir muito a boca, mas é boa pessoa. Estou olhando para dentro, sei quem sou, de onde vim e para onde vou. Cadê o portal?

– Tudo isso que você me fala, meu caro amigo Lui, é apenas o que aconteceu com você. Não é quem você é. A Terra não é a origem de quem você é. É apenas a origem da humanidade. Andrômeda não é seu propósito, é apenas um lugar onde quer chegar, como muitos outros. Como uma simples ida à padaria. Você não pode deixar esta galáxia e entrar em um outra como se saísse do quarto e fosse até a cozinha.

– Meu caro Malagoputo, então, do que precisamos? – Perguntei.

– Vocês precisam responder a três perguntas. E terão o tempo que precisarem para chegar às respostas. A junção das três respostas abrirá um caminho por onde vocês chegarão à fronteira final.

– Quais são elas, então?

– A primeira é: por que você decidiu iniciar esta viagem? A segunda: que sentido há em continuar esta jornada? E a terceira: o que você espera encontrar quando chegar lá?

Todos nós estávamos confusos e concentrados ao mesmo tempo diante de perguntas tão simples mas paradoxalmente tão complexas. Quem quebrou o silêncio foi Zeg:

– Como podemos olhar para dentro quando suas perguntas são sobre o mundo de fora? A viagem, a jornada e a Galáxia de Andrômeda não fazem parte do mundo de dentro…

O Malagopluto respondeu:

– Nossas escolhas são os tijolos da nossa existência, elas nos constroem. E ao entender estas três etapas das suas escolhas vocês entenderão porque vocês construíram este barco, por que ainda não voltaram ao cais e o que há além desse horizonte sem fim. Quando você enxerga a trajetória de um barco pelo oceano você conhece muito sobre o capitão que o conduz.

– E como saber disso nos levará além da Via Láctea?

– Ora, não se pode chegar muito longe com os olhos fechados.

[…] continua

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Doutor, como você diz adeus?

A habilidade médica que apresento a vocês é embasada nos conceitos resumidos de um anagrama, ADIEU, que alude ao momento da despedida, o tchau na estação de trem, ou ao embarcar no navio emigrante prestes a partir para longes mares, o navio negreiro, ou na tragédia grega, ou numa frase romântica no alto da Sacre Coer de Montmatre:

  • Adieu, mon amour, je vous aime tout les jours, toujours…

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É o adeus, esse verbete que define a despedida, esconde uma parte incrivel e complexa da ligação entre queridos, no abraço ou no beijo, no olhar de afeto e no aperto de mão, é também um verbete do qual nos apossamos todos com uma consciência vaga, quase por costume ou titubeio, preguiça, eu acho, de que apenas a palavra adeus, por si só, já não é apenas um simples tchau, até logo, nos vemos, é um pouco maior que isso.

É há um adeus, solene, nobre e ineviável que nos assombra toda a vida, o adeus à vida. A tudo e todos, de uma só vez. Uma grande perda, uma reprogramação emocional e mental de extremo consumo psiquico e emocional: a morte. E, assim como eu a vejo, ela é um grande alçapão que nos leva deste teatro mundano, para as coxias da existência. Antes do alçapão abrir, você está em frente a sua platéia, deu seu show, fez sua parte, e agora vai nos deixar porque somos pessoas diferentes, umas vivem mais, outras menos, há crianças que sequer conheceram a vida adulta, há velhinhos cheios de lembranças, adolescentes sonhadores cheios de planos, pais e filhos. E estamos prestes a participar desse Adeus, é uma roleta russa.

Assim, proponho um modelo para noticias de adeus, de perdas, seguindo um mnemonico com as letras da palavra francesa “adieu”:

  • A – APPROACH – A hora de chegar até o paciente ou familiar fragilizado. 
  • Dr, esta é a família do Jorge.
  • Olá, prazer, sou Dr. Emerson, estive ansioso durante a manhã para aguardar esse nosso encontro. Tenho conversado com sua mãe e ela parece estar muito nervosa, como a familia está? 
  • Todos muito nervosos, meu pai é o que mais chora, foi um susto muito grande para nós.
  • Eu entendo… – diz o médico tocando o ombro do seu ouvinte, enquanto decidem ir ate uma sala e sentarem-se.
  • É meu irmão, doutor, o quadro dele é muito grave?
  • D – DIAGNOSIS – Didaticamente, explique com simplicidade o que ocorreu.
  • É bastante dificil, vou explicar a você, Jonas. 
  • Jonas olha atentamente para casa palavra e entonação dita pelo médico:
  • Seu irmão tinha um raro defeito na criação dos vasos sanguineos da cabeça, um deles se encheu de sangue, feito uma bexiga por causa disso, e um aumento devido à sua pressão alta não tratada. Chegou uma hora que essa bexiga cheia de sangue, que antes era um vaso sanguineo, rompeu e seu pai está classificado, apos a tomografia como muito grave, fisher VI, pois entrou sangue nos ventrículos cerebrais, ganglios da base, putamen, piorando muito a capacidade do cérebro de ttrabalhar corretamente e é por isso que ele está usando esse tubo para respirar, esses eletrodos para o coração. 
  • Então ele teve um AVC, Doutor?
  • Sim, pela tomografia, percebemos que houve uma grande hemorragia e que há pouco que podemos fazer, e talvez esse AVC possa ter um desfecho rapido, em algumas horas, mesmo controlando a pressao sanguinea, a ventilação, a circulação sanguinea, o vasoespasmo, a dor, vomitos, até aí podemos ir neste momento, mas ele precisa de uma embolização arterial de urgência, feita por um neurocirurgião.
  • I – INFORMATION – Dê informações cientificas de modo simplificado e sincero, sobre o caso.
  • E ele vai sobreviver?
  • As chances de ele sobreviver sao baixas, mesmo se ele fizer ou não a cirurgia. É uma decisao dificil, mas sabemos que alguns casos que submetem a essa terapeutica conseguem uma boa taxa de melhora, mas se nada mais fizermos, a tendência é que ele nos deixe em poucos dias.
  • E – EMPATHY – Demonstre que consegue compreender o sofrimento e angústia do familiar e do paciente.
  • Jonas conforta-se na parede para chorar…
  • Eu entendo que este momento é algo que o senhor não estava esperando, é uma surpresa e são decisões importantes. Imagino seu nervosismo, pois tenho um irmão mais novo também. – E o médico lhe dá um abraço contido, mas sincero, e um aperto de mãos acalentador. Dizendo:
  • U – HUMANITY – Finalize a conversa mostrando que você não deixou de ser humano, explique sobre a equipe de pessoas que cuida ou cuidou do paciente, se puder apresente-a. Coloque-se a disposição do seu paciente. Use eufemismos para amenizar, por ora, esta nova realidade que você apresentou ao familiar ou ao paciente. O assunto poderá ser tratado de maneira mais objetiva num segundo tempo.
  • Vamos enfrentar juntos essa batalha, eu estou do seu lado e posso fornecer a cirurgia, mas estamos em conjunto no dia de hoje, lutando para que o melhor para o Sr. Jorge aconteça. Você pode me encontrar aqui neste hospital para outras informações nas todos os dias. Estamos todos torcendo por um bom desfecho e fazendo o que está ao nosso alcance para que seu irmão esteja tendo conforto e paz nesse momento crítico. Ele está sedado, sem dor, e respirando bem com os aparelhos, numa cama quentinha, com muita gente que ama o que faz cuidando dele 24h por dia. Vá para casa, tome um banho e tente descansar. Até amanhã.
  • Obrigado, doutor, que Deus o abençoe.

É em estatística que se entende que doentes crônicos morrem, os doentes genéticos morrem cedo e os doentes graves morrem muito mais do que os doentes que ficam no espectro das doenças mais facilmente tratáveis. Mas este é um conhecimento prático e senso comum que deve ser relembrado ao paciente e sua família. “Por mais que nossa equipe seja boa, seu problema é bastante complicado”

Nós, médicos, principalmente aqueles que convivem com doentes crônicos e com prognósticos reservados, sobrevida pequena, alta morbidade, situações de grande energia emocional envolvida, seja a sala de emergência por onde entra um doente infartado, já em choque cardiogênico, seja o momento em que a cavidade abdominal abre-se sob o bisturi de um cirurgião vascular a tratar um aneurisma de aorta, seja na decisão agonizante ao receber um paciente terminal de câncer em insuficência respiratória ou nas visitas familiares diárias das UTIs, no momento que precede e sucede um adeus categórico como este, o último suspiro da vida, precisamos ser mais do que humanos, precisamos ser em toda a integridade da profissão: médicos. O nascer e morrer são o alfa e ômega na medicina, assim como na vida. Despedir-se desse milagre merece certa cerimônia. Eu proponho, ao menos, um adieu.

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A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. XX

O Pacto Cósmico de Marte

“Homo homini lupus”

Thomas Hobbes

Após o jantar, reunimo-nos eu, Zeg e Lui, todos no Salão Sério, à espera de Marcondes, um dos altos executivos do Poder Intergaláctico. Marcondes é especialista em relações interplanetárias e estava à nossa espera, a pedido da Rainha Mydda, para nos contar algumas revelações importantes sobre a dinâmica da vida no Planeta Terra e um pouco sobre História Cósmica. Em um salão redondo, com paredes cinza-sério, com cadeiras de quatro pernas, totalmente sérias e uma mesa ordinariamente séria e redonda, sentamo-nos à presença do ser mais comum que poderíamos ter conhecido no mundo: um ser humano. Marcondes é um terráqueo brasileiro, de baixa estatura, abduzido por uma pequena nave espacial nos anos 1950 pelo fato de ter adiquirido um conhecimento vasto e perigoso para os terráqueos. Devido a isso, foi resgatado das mazelas da Terra e convidado a compor o Poder Intergalático sediado em Saturno, tendo a opção de voltar ao seu planeta de origem, caso quisesse, mas, como vocês podem perceber, ele optou por ficar. Após uma preparação intensa no Centro Cósmico de Recuperação, ele recebeu sucessivas injeções endovenosas de um composto secreto à base de neutralizadores do processo oxidativo celular, capaz de aumentar a longevidade dos seres humanos em muitos e muitos anos. Marcondes, naquela época em que o encontramos, 2200, tinha já seus quase 300 anos, exibia já alguns sinais da idade como rugas humanas simples e calvície humana comum. Usava um óculos normal e a roupa humana mais sem criatividade que existe: terno e gravata. Ainda não tinha direcionado seu olhar a nós. Nós, ao contrário, analisávamos cada poro da sua pele, cada fio do seu cabelo e cada um dos pelos abundantes que saíam de suas orelhas enormes.

Silêncio. Estávamos ansiosos para ouvir o que aquele senhor extremamente normal – à exceção da quantidade de pelos nas orelhas – que mais parecia um gerente de banco ou um corretor de imóveis. O que teria ele para nos contar sobre o Universo e o nosso planeta de origem? Marcondes folhava alguns papeis – pois sendo muito tradicionalista ainda se recusava a utilizar os inovadores hologramas ultra-reais 5D disponíveis nos anos 2200 em Saturno – e, após organizar sistematicamente seu copo de café, alguns clipes de metal sobre a mesa, bateu a aresta das folhas que segurava duas vezes contra a mesa, fazendo o mesmo barulho que isso faz na Terra, empunhou então uma caneta em sua mão direita, fazendo um som de clic, que introduziu sua primeira frase:

– Pois bem, meus caros, acho que vocês devem ser bobos e ingênuos o suficiente para precisarem ouvir toda a minha sistemática e óbvia história sobre por-que-tudo-é-como-é – iniciou a conversa – e acreditem, eu estaria muito mais confortável no meu escritório fazendo e refazendo os cálculos que comprovam todas as leis físicas e químicas que regem o tempo e o espaço, mas conversar com terráqueos se faz necessário vez por outra quando eles encontram aquele dito caminho de nêutrons esquecido na Terra e chegam até aqui.

– Então não somos os primeiros? – Indaguei.

– Não, Viajante, não são. Infelizmente já tive que manter contato próximo com outros terráqueos outras vezes. E eles sempre me passam algum resfriado ou alguma outra virose. Logo começarei a espirrar e meu humor de péssimo se transformará em pior. – Tossiu.

– Perdão, senhor Marcondes, nós não gostaríamos de incomodá-lo, saímos nesta viagem e nem imaginávamos que iríamos fazer esta escala em Saturno, mas tudo aconteceu de maneira tão inesperada que…

– Ora, Viajante, como você é um terráqueo comum e normal ao mesmo tempo, quando você sai da sua gravitação terráquea e adentra o Universo além da exosfera fica sujeito a influências da Consciência Intrometida Espacial, que altera e modifica alguns pensamentos humanos idiotas e corrige sua rota para que não se percam em um local tão escuro e inóspito quanto o Universo. Assim, quando foi detectado que havia seres-terrestres-perdidos-achando-que-não-estavam-perdidos, a Consciência Intrometida Espacial interviu e os trouxe até aqui, quando Vilili, nosso velho piloto de elite disfarçado de taxista espacial os resgatou e, sob a custódia da princesa Galaxala, os trouxe ao encontro da Rainha Mydda, para que sua ignorância fosse tratada com Informação Científica Obscura Inquestionável e que sua imaginação e criatividade pudessem ser aprimoradas o suficiente para que saibam que não se deve, por exemplo, utilizar sandálias havaianas no solo de Plutão porque, obviamente, não são próprias para isso.

– O que Plutão tem a ver com sandálias havaianas? – Questionou Zeg.

– O solo de Plutão não é um solo de se pisar com calçados comuns, pois ele não é sólido, apesar de parecer sólido. E já houve casos de longos internamentos no Centro Cósmico de Recuperação de seres humanos que inexplicavelmente chegaram até Plutão de sandálias havaianas, porque eles têm uma imensa obsessão por elas, e acabaram escorregando para dentro do planeta e para fora dele, em queda livre, perdendo-se no espaço.

– Oras, mas então o que se usa em Plutão para dar um passo ou outro? – Perguntei.

– Pantufas muito grandes – revelou Marcondes – pantufas muito grandes e fofinhas, feitas de espuma menos densa do que o solo de Plutão. E não havaianas. Nunca, jamais.

– Puxa! Realmente, eu me sinto um pouco bobo ao perceber que não era capaz de supor algo tão óbvio… – Respondi.

Naquele momento, no Salão Sério, um silêncio constrangedor pairou sobre todos nós, enquanto Marcondes ficou de olhos fechados por um momento, de cabeça baixa, e dormiu por 15 segundos, chegando a emitir um ronco, que o acordou.

– Opa! Bem, então… Vamos começar do começo – Marcondes inspirou profundamente, colocando o dedo indicador na testa, para pensar melhor: O Big Bang, belíssimo e pouco criativo nome dado à explosão que gerou o Universo que vocês estão conhecendo por aí… Os terráqueos acreditam que o Big Bang foi “a origem de tudo”, mas antes mesmo do Big Bang já existia muita coisa no Universo Externo. O Universo Externo é uma região inacessível e, por favor, desistam de tentar chegar até lá, porque é mesmo impossível, onde habitam a Idéia, o Raciocínio, o Sentimento, o Conhecimento e a Energia. Essas cinco existências não têm tamanho e nem forma, são apenas existências misteriosas que se comunicam entre si por conexões complexas e geram fenômenos existenciais de tempos em tempos, e um deles foi esse, o Big Bang, que foi gerado em uma “conversa” da Ideia com a Energia, que imaginaram o quão interessante seria criar um lugar infinito cheio de bolinhas coloridas que iam pra lá e pra cá, girando em alta velocidade, uma diferente das outras. Foi aí que, ao juntarem-se suas forças criaram este ambiente que chamamos de Universo. Bum! Ou melhor: Bang! Foi um espetáculo lindo a inauguração do Universo, todos os 5 habitantes do Universo Externo aplaudiram de alguma forma. Então os criadores apreciaram sua criação por um tempo e pouco depois esqueceram-se dela, ocupando-se de coisas muito mais interessantes que não sabemos quais são, quando então o Sentimento e o Raciocínio viram essa coisa toda abandonada (e um tanto quanto monótona) e acrescentaram um pouco de suas essências, criando pois a Vida. Todo mundo aplaudiu de novo, acharam ótimo, muito divertida a Vida, dinâmica, genial! E esqueceram de tudo isso de novo porque estavam ocupados com algo mais importante que, de novo, não sabemos o que é e, de certa forma, não faz muita diferença. Mais tarde, enquanto estavam à toa, olharam para o Universo e assustaram-se com a imensa desordem de todo o sistema, quando o Conhecimento achou melhor organizar o que, sem ele, estava se transformado num completo e perigoso caos. Foi aí que o Conhecimento reuniu-se com o com um dos seres vivos criados anteriormente pelo Sentimento e pelo Raciocínio: Deus, para que ele construísse e organizasse um lugar melhor para o desenvolvimento e perpetuação da Vida e “desse uma ajeitada naquela bagunça”. Deus, muito criativo e disposto, tentou várias vezes, em diversos projetos planetários criar maneiras de organizar a utilização da Vida para o bem e em prol do Conhecimento, até que deprimiu-se por perceber que não era assim tão fácil organizar bilhões de seres dotados de sentimento e raciocínio ao mesmo tempo, isolando-se no centro do Sol para que ninguém o incomodasse, até o momento em que outro ser dotado de muito raciocínio mas pouco sentimento – Rafide – começou um plano maligno de dominação e ganância, querendo governar tudo e todos, para se tornar superior aos outros seres vivos. Foi aí que surgiu a hierarquia e, depois dela, o conceito de dominação. Mydda, a então Rainha de Saturno, era um ser vivo dotado de muito raciocínio mas também muito sentimento, percebeu que o Universo corria riscos estando subjugado aos planos de Rafide, que já tinha estragado todo o planeta Terra, construído por Deus, cheio de dinossauros alegres e contentes, vivendo em harmonia. Rafide havia iniciado a preparação da Terra, eleito o ambiente perfeito para a criação de um exército. Ele colidiu então contra ela um grande cometa, que transformou o planeta num imenso inferno, com incêndios e fumaças tóxicas que impediam os raios de Sol de levar vida até lá, assim todos os dinossauros perderam a Vida e a Terra estava “limpa”. Após isso, Rafide plantou a semente de um plano genial e maligno de dominação elaborando o que chamou de Vida Complexa, ou Vida Tipo 2, através de um mecanismo de evolução, utilizando já alguns conceitos criados por Deus e um pouco da matéria advinda do Big Bang. Sua fixação era criar um exército de seres projetados para, além de terem raciocínio e sentimento, pudessem ser influenciados. Assim, poderia inserir suas ideias de destruição e dominação em sua estrutura biológica, e para isso, centralizou seu projeto no  que chamamos hoje de DNA, um ácido (não poderia mesmo ser algo doce) em que pode-se inserir genes de maneira criptografada e secreta. O progresso desse projeto foi lento e foi se aprimorando ao longo do tempo, a partir de um primeiro projeto: as Pró-TNSS (chamadas pelos terráqueos hoje de proteínas), aí então criou os celenterados (CLtera2), evoluindo a bactérias (BCtera-alfa), peixes (PXSS), anfíbios (alfa-bio2), répteis (RPT2), mamíferos (MM-feras), destes então facilmente aos macacos (MMKKS) até sua forma final, os 1MNOS, ou humanos, que mais tarde descobriram todo esse processo e, por surpreenderem-se com sua própria genialidade ao deduzir tudo isso, intitularam-se a si próprios de Homo sapiens, exibindo já uma de suas marcantes características: a vaidade. Mais tarde, por continuarem impressionados com sua capacidade de utilizar a Ideia, o Raciocínio, o Sentimento, o Conhecimento e a Energia, batizaram-se de Homo sapiens sapiens, que significa em seu idioma primitivo: “homem que pensa bastante”, revelando uma outra característica: a soberba. O projeto seguia-se como um sucesso, e os 1MNOS se mostraram criaturas bastante influenciáveis, capazes de integrar os planos de Rafide e lutarem junto a ele na dominação do Universo. Com a vaidade e a soberba, os homens, por si só, criaram o Ódio, a ferramenta perfeita de destruição.

Nesse meio tempo, Mydda, muito preocupada com a evolução das coisas na Terra, que botavam em risco todo o Universo, reuniu-se com Deus e criou uma tecnologia chamada AMOR (Avançado Modificador de Odio Revolucionário) e enviou agentes secretos à Terra para implantarem esse sistema no DNA dos humanos em favor da Vida. Budda, Jesus, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela foram agentes que acabaram por ficarem famosos, mas muitos outros continuam infiltrados na Terra, na tentativa de dissipar o ódio dos seres humanos uns pelos outros e freiar o processo destrutivo iniciado há milhões de anos. Como planejado, os seres humanos começaram a criar sondas e naves espaciais cada vez melhores e o maior risco é que, sendo ainda portadores do Ódio, começaram a colocar em risco o bem estar do Universo. Por isso, em Marte, numa época em que o projeto de Rafide ainda desenvolvia a fase das Pró-TNSS, em cópia às proteínas originais antes criadas no projeto da Vida, Mydda convocou todos os líderes da galáxia e reuniu-se com a Rainha de Marte, a Rainha Akunis, e vários outros membros da realeza intergaláctica para criar um Plano Secreto de Intervenção, um plano que colocaria um gene nos seres humanos com uma característica essencial: a limitação do seu tempo de vida a poucos anos.

O Pacto Cósmico de Marte estabeleceu então que, pela segurança da galáxia, e para a não proliferação desordenada dos seres humanos na Terra, um gene secreto e invisível controlaria a sobrevivência dos 1MNOS a, no máximo, 150 anos, devido ao risco iminente de sucesso do projeto maligno de Rafide, visto já após a criação bem sucedida das Pró-TNSS, que se organizavam evoluindo a CLtera2 nessa época.

Foi aí que agentes da Segurança Galáctica foram enviados pelo Poder Intergalático e tiveram acesso aos projetos de Rafide, inserindo no desenho do DNA dos 1MNOS o gene secreto. Assim, a evolução do Conhecimento nos seres humanos seria limitada, já que não seriam capazes de, em vida, adquirir sabedoria suficiente para conquistarem o Universo, e as informações seriam passadas de geração em geração, de maneira mais lenta. Dessa forma, Mydda ganhou tempo para fortificar-se e preparar-se para lutar contra Rafide e, posteriormente, destruí-lo, como aconteceu. Porém, mesmo após a extinção da vida em Marte, devido a uma grande epidemia de um vírus multirresistente e fatal, há milhões de anos, o acordo feito naquele planeta ainda persiste e faz parte do genoma de todos os 1MNOS. A tecnologia do AMOR e os agentes secretos persistem, ainda hoje, lutando para combater o poder do Ódio na Terra, que no momento está destruindo os próprios seres humanos e seu próprio planeta, enquanto, para o bem de todas as criaturas extraterrestres, não são capazes de viajar muito longe no Espaço. – Finalizou Marcondes

Zeg e Lui estavam paralisados. Eu reconhecia-me como um típico 1MNO, e sentia o rubor quente do meu rosto, e meu pulso acelerado.

Aaaaaaaatchim! Vejam só, algum de vocês me passou uma virose… – Marcondes levantou da mesa com seu copo de café e deixou o Salão Sério.

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(continua…)

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A Epopeia de Zeg e Lui – Cap. XIX

Reencontros e Revelações

“Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia.”

William Shakespeare

Ainda chocado com a verdade revelada por Mydda acerca de toda a história do Universo, no Jardim do Impossível, lágrimas escorreram pelo meu rosto, não segurei a emoção. Quisera eu, um dia, em toda a minha imaginação, ter suposto o que acontecera antes mesmo de a humanidade povoar a Terra. Naquele encontro, percebi que tudo é muito maior do que pode supor a nossa pobre razão humana. Inclusive o tempo, os bilhões de anos que antecederam a chegada do homem primitivo e os milhões que o separam do homem racional que hoje povoa o nosso planeta. E ainda há quem, em gigantesca pretensão, na Terra, profetize sua sabedoria científica como o mais puro conhecimento. Isso é um erro. Do ano que vim, a Ciência moderna tinha lá seus 300 ou 400 anos. A Ciência humana é o conhecimento que os seres humanos puderam compreender e acessar de acordo com suas capacidades e limitações biológicas, e mesmo limitada é muito vasta e válida. Mas para compreender a imensidão do Universo ela ainda era insuficiente em 2200, quando deixei a Terra.

As coisas não são tão óbvias o quanto parecem, veja bem você. Os humanos são capazes de enxergar menos de 1% do espectro eletromagnético e ouvem menos de 1% do espectro acústico. Estão se movendo a 240 quilômetros por segundo pela galáxia, girando numa grande esfera a mais de 1500 quilômetros por hora, sem ao menos sentirem-se tontos. 90% das células que formam o corpo humano não são células humanas, e sim bactérias, e você vive muito bem com isso, mesmo sem saber. 99,99% do seu corpo é espaço vazio entre átomos e, mesmo assim, você não é transparente. Esses mesmos átomos originaram-se de um buraco negro que explodiu há bilhões de anos e hoje, unidos, fazem de você um ser vivo. Então, se formos analisar, a vida mesmo, a vida que você respira não é uma coisa óbvia, sistemática e sem graça. Ela, em si, é talvez a coisa mais maluca que existe. E pode haver muito mais dessa maluquice nesses bilhões e trilhões de anos-luz, histórias que parecem inacreditáveis, como esta.

Até agora você pode estar estupefato, cético ou achando óbvio tudo o que relatei aqui. Os estupefatos ou céticos estão no passado, com toda a certeza. Os que acham os relatos óbvios estão no futuro e já viram tudo isso acontecer. Não sei em que ano você está, se antes ou depois de toda essa história ser disseminada na Terra. Se você ainda está no passado, tenha apenas uma coisa em mente: nem a mente mais brilhante pode desvendar todos os mistérios do Universo, o que há lá fora é infinitamente maior que sua compreensão. Nenhuma sociedade jamais entenderá a complexidade que organiza galáxias, planetas e organismos. Tudo o que existe pode ser diferente do que você conhece. A razão humana é falha, a prepotência humana é infinita.

– Por que toda essa verdade sobre o Universo não foi revelada à Terra, Majestade?

– Porque há muita política por trás disso, Viajante. E o principal ponto que você precisa entender é o Pacto Cósmico de Marte. Essa é a grande razão para estarem aqui. Há uma reunião marcada com Marcondes no Salão Sério, amanhã. Por  ora, peço que descanse. Eu o levarei até seus amigos agora. – Disse a rainha.

Segui silenciosamente a soberana pelos corredores e salões do palácio, até chegarmos a uma sala de jantar, com cadeiras e uma mesa não muito grande. Parecia muito com uma sala de jantar comum, dessas que existem na Terra, mas com quatro portas, uma de cada lado. Ao mesmo tempo que adentrei ao lado de Mydda, meus amigos Zeg, Lui e Galaxala também adentraram a sala ao lado de uma Mydda também. Quatro figuras iguais da soberana coexistiram por algo como um segundo, e depois juntaram-se em uma só, num piscar de olhos.  Todos nós estávamos na presença dela, e ela nos atendeu individualmente, em seus imensos e misteriosos poderes, já que a natureza da rainha era regida por leis físicas muito diferentes das nossas.

Corri até meus queridos companheiros de jornada, numa mistura de saudade e alívio, de emoção e outros sentimentos mais que me ocorriam.

– Zeg! Lui! Galaxala! Eu preciso lhes contar tudo o que Mydda me contou! Vocês não vão acreditar! – Falava eu, eufórico, enquanto nos abraçávamos os quatro. – A extinção dos dinossauros foi um plano de Rafide para usar nosso planeta para um plano maligno! E o pior, para criar criaturas destrutivas em seu plano de dominação da galáxia! Mas Mydda, Mydda nos defendeu de Rafide, ela inclusive conversa com Deus, e ele existe mesmo! Houve uma gigantesca batalha que na verdade ocorreu no futuro, e nossa, a verdade pode ser muito diferente do que imaginamos… – Eu estava assustado ainda, impressionado e extasiado com as dimensões que essa viagem havia tomado na minha vida.

– Viajante! – Galaxala correu até mim e, com sua pequena altura, abraçou-me na altura da barriga, como uma criança. – Mydda não é mesmo fantástica?

– Sim, não há outra palavra que a defina melhor, Majestade – dirigi-me, então, a ela – está sendo surreal para mim poder estar em sua companhia e ouvir as suas palavras.

– Para todos nós! – Disseram em coro meus três amigos.

– Eu é que me sinto honrada com a visita de vocês, viajantes, ela é muito importante para mim.

– Que bom que não se arrependeu de ter nos seguido até aqui – disse-me Zeg.

– Ah, Zeg! Que saudade de você! Lui, venha cá também, me dá um abraço!

Abraçamo-nos os quatro. Mydda, a uma certa distância, olhou-nos, sorriu e então deixou a sala por uma das portas, arrastando seu longo vestido vermelho. Alguns saturnianos, então, começaram a entrar e a servir a mesa com algumas comidas diferentes e outras bem comuns. Eu realmente estava faminto. Sentamos à mesa e conversamos sobre o que havia acontecido nesse tempo em que estivemos separados. Começou Zeg, a contar:

– Mydda levou-me a um gigantesco lugar vazio, ao entrarmos pela porta estávamos em meio a um gigantesco nada, preto, com pontinhos cintilantes à distância, e logo reconheci que aquele era o Universo. Aí ela me explicou que aquela era uma sala de alta tecnologia que funcionava como um simulador do espaço. Ela me deu conhecimentos atualizados sobre a matéria e a energia escura, conhecimentos que ainda não foram revelados a quase nenhuma sociedade. Contou-me que essas entidades, a matéria e a energia escuras, são criptografadas para que não sejam utilizadas por sociedades malignas. Cada partícula de matéria escura é envolta por um componente secreto, o SCX-45, que torna essas partículas inertes a qualquer interferência a não ser a ação gravitacional que exercem sobre a luz. Sociedades menos desenvolvidas, como os terráqueos, já conseguiram identificar sua existência, mas seguramente não poderão ultrapassar a criptografia cósmica SCX-45 e ter acesso a essas substâncias. Já a energia escura é a força que vai contra a gravidade dos planetas e galáxias e, os impedem de que se aproximem e se choquem. Mydda contou-me que ela é relativamente nova, foi uma solução de engenharia proposta por Deus para que planetas e galáxias não viessem a se chocar no futuro, impedindo que fossem atraídas uma pelas outras, pela gravidade imensa advinda de suas massas.

– UAU! – Dissemos em uníssono.

– E a você, Lui, o que Mydda revelou?

– Ah, bem, vocês sabem que eu não tenho muita paciência para esses conhecimentos importantes e difíceis e então eu pedi a Mydda que jogasse o Jogo do Sério comigo.

– O quê? – Disse Zeg – Você disperdiçou sua reunião pessoal com a Imperatriz da Galáxia brincando de sério?

– Ah, vocês nunca querem brincar comigo e eu estava um pouco entendiado. Entendam… – Disse Lui, abaixando a cabeça.

– E quem ganhou? – Perguntou Zeg.

– Adivinhem… – Respondeu Lui.

– Ah, eu suponho que Mydda tenha ganhado, já que ela é infinitamente mais sábia que todos nós e o jogo do sério é, essencialmente, uma brincadeira bem simples… – Respondi. Zeg e Galaxala concordaram comigo.

– Pois saibam que estão todos errados! Mydda perdeu!

– O quê? – Lui nos surpreendeu com a revelação.

– Sim, meus caros – disse Lui, faminto, enquanto mordia uma coxa de frango – ela perdeu logo no começo.

– Mas e depois, o que fizeram? – Curiosos, indagávamos todos.

– Jogamos outra vez.

Ficamos em silêncio. Lui mastigava a comida e, com muita naturalidade, continuou:

– Ué, o que foi? Vocês ficaram lá descobrindo coisas que não podem mudar, muito maiores do que a minha própria compreensão, eu estaria dormindo na metade dessas explicações todas. Eu só quis interagir um pouco, quebrar o clima sério, gente.

– E Mydda ganhou alguma vez?

– Nenhuma, estou invicto! – E Lui ergueu um punho, vitorioso, sem deixar de mastigar por nenhum instante.

– Bem, e você, Galaxala, como foi seu encontro com Mydda? – Perguntei.

– Ah, meus queridos viajantes, eu e Mydda somos velhas conhecidas. Ela agradeceu por eu os ter resgatado no espaço e trazido até Saturno. Falamos essencialmente sobre o Amor. Sobre o progresso do Amor, na verdade. Existe uma comissão intergaláctica muito influente, a C.I.E – Comissão Intergalática para a Evolução, que desenvolve algo como se fossem softwares, que ajudam sociedades em evolução. As raízes genéticas do Amor, por exemplo, foram criadas na C.I.E e implantadas no genoma dos seres há muitos e muitos milhões de anos. A simples existência de vida sem Amor gerou muitos problemas no passado, e um dos grandes é a guerra iniciada por Rafide, como você já sabe. Porém, a tecnologia do Amor, por mais sofisticada que seja, ainda possui alguns ‘bugs’, digamos. Na Terra, inclusive, já precisamos enviar muitos agentes secretos, que foram tidos pelo terráqueos como profetas, para reparar alguns desses bugs, já que esse implante não responde muito bem em algumas raças. Os humanos frequentemente têm problemas com isso e nos dão algumas dores de cabeça – Galaxala riu um pouco nessa hora – e Mydda acompanha de perto as atividades do C.I.E na Terra porque estamos estudando, no momento, algumas novas tecnologias para implantar no planeta de vocês.

– Então vocês estão constantemente trabalhando na Terra e a gente não sabe? – Perguntei.

– Ora, não dá para dizer que vocês não sabem, não é mesmo? – Disse Galaxala com um sorriso maroto. – Volta e meia vocês nos flagram sobrevoando algum lugar.

– Então os objetos voadores que aparecem na Terra são reais?

– Tanto quanto este palácio e esta coxa de frango – disse Lui.

[continua…]

Olá :)

 

 

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A Epopéia de Zeg e Lui – Cap. XVIII

A Batalha

Frente-a-frente, Mydda e Rafide, duas das mais poderosas forças da galáxia estavam prestes a travar uma das maiores batalhas da história universal. Mydda e seus soldados de silício estavam descansando em um asteroide que orbitava calmamente próximo a Betelguese. Mydda descreveu-me que o ambiente assemelhava-se à nossa Lua. Uma areia cinzenta, várias crateras e um céu negro sobre eles. Um ambiente monocrômico e sombrio. Arrasada pelas últimas batalhas, Mydda descansava no alto de um morro, a alguns metros do restante de seu exército. Estava refletindo sobre sua missão e nos riscos que toda a Via Láctea corria. Foi neste momento que uma fumaça preta começou a formar-se à sua frente, ficando cada vez mais densa. Mydda temeu pelo pior. Serena e, mesmo sem estar totalmente recuperada da sua última batalha, sabia que o futuro da Via Láctea dependeria daquele momento, caso a fumaça preta fosse mesmo o mau presságio de que Rafide estava por vir. A poucos metros do chão, tudo ia ficando cada vez mais denso, tomando a forma do que parecia uma fumaça espessa, que se dissipava lentamente à sua frente.

– Apesar de nunca ter me encontrado com Rafide, e também sem conseguir supor como seria seu aspecto no futuro onde eu me encontrava, aquele sinal me dizia que uma energia muito maligna e poderosa estava se formando ao meu redor. Só poderia ser a presença dele. Quando virei as costas para recorrer ao exército e pedir ajuda, percebi que a fumaça preta me cercava por todos os lados, eu já estava envolvida por aquela energia maligna e poderosa. Naquele momento, não tive dúvidas do que estava por vir. Fechei os olhos por um instante e respirei fundo. Nesses poucos segundos, a vida passou-me inteira diante dos olhos. Mesmo sendo a rainha de Saturno e tendo governado um planeta inteiro por milhares de anos, uma parte de mim nunca cresceu. Sempre houve uma parte que continuava a se sentir indefesa, como se eu tivesse recém saído do laboratório e nada soubesse sobre a vida ou sobre como me defender. Ainda lembro de todos os medos que eu tinha quando não passava de um projeto. E naquela hora decisiva eles quiseram me dominar. Os seres que passaram pela minha vida durante todo esse tempo em que estou aqui, os saturnianos que eu amei e que já se foram, os que ainda esperavam o meu retorno em casa, tudo foi se juntando num sentimento intenso, uma síntese dos momentos mais decisivos por que passei, um verdadeiro filme, e quando eu abri os olhos novamente reuni forças; eu tinha que ser forte e dentro do meu eu não havia espaço para dúvida ou fraqueza. Se eu não lutasse, ninguém lutaria por mim.

Mydda tentou chamar pelos soldados de silício que Deus colocou ao seu dispor, mas a espessa camada negra impedia que o som e até mesmo a telepatia chegasse até eles. A certeza da chegada de Rafide ia se consolidando. Ela então iniciou sua preparação pela batalha da sua vida, sozinha, contra o Imperador do Mal. Quando a fumaça dissipou um pouco e a visão ia ficando mais transparente, a rainha percebeu que não estava mais naquele asteroide. Reparou primeiro que o solo sob seus pés era diferente. Percebeu que Rafide a tinha sugado para um campo de batalha distante dos soldados de silício, em um outro Universo. Caminhando lentamente à sua frente, a alguns metros, ele vinha em sua direção degustando o momento e ansiando por destruí-la. Mydda contou-me que seu tamanho era imenso, ele era quase tão grande quanto uma montanha. Sua cabeça tinha vários olhos, chifres e outros órgãos sensitivos diferentes desses que conhecemos. Seu rosto parecia uma massa sem forma definida, todo desfigurado. Rafide era corroído pela sua própria energia negativa e em nada ele parecia com o ser que dominou a galáxia no passado de onde Mydda veio para lutar. Mas ela não fraquejou, sabia que esta era a sua missão e a possibilidade de salvar todas as espécies que dela dependiam impulsionaram-na a lutar. O momento era sombrio e intenso. Mydda com suas vestes vermelhas e cintilantes de um lado e do outro Rafide, em sua aparência horripilante e sombria, caminhando a passos lentos em sua direção. Sua imagem ia ficando mais nítida ao passo que se aproximava e a fumaça ia ficando menos densa.

Nenhuma mente humana conseguiria imaginar a dimensão da batalha que aconteceu ou o que tudo isso significa e influencia na vida que vivemos hoje. Primeiro porque aconteceu num futuro tão distante e muita coisa será completamente diferente lá, são 10 mil anos de distância do hoje, e segundo porque nada naquele cenário é humano, nada do que vocês já tenham visto, lido, ou ouvido falar. Se descrevo com palavras humanas é porque Mydda, em sua imensa sabedoria, traduziu-me o que viveu. A coragem de Mydda ao enfrentar sozinha o monstro que dominava uma galáxia inteira, que tinha dizimado planetas inteiros, isso o ser humano não consegue ainda entender muito bem. A força do pensamento, o grande poder e a bondade de Mydda, isso ainda é raro na Terra em meados dos anos 2000 e será por muito tempo. O que vou descrever agora é apenas uma pequena parte do que aconteceu. O que eu consegui entender e o que consigo contar.

Naquela outra dimensão desconhecida, o que Mydda acreditou ser um outro Universo, Rafide levitou lentamente, chegando a muitos quilômetros de distância na vertical, apesar do seu tamanho ele mantinha certa agilidade aliada a um grande poder capaz de coisas que nem Mydda poderia supor. Lá de cima, observou a diminuta dimensão da rainha, que parecia um pequeno ponto vermelho em roupas cintilantes.

– Então você é o espécime que ousou atrapalhar os meus planos de dominar o Sistema Solar?

À distância, eles conversavam por telepatia. O silêncio pairava no Universo.

– Sim, Rafide, eu sou a rainha Mydda. Eu sou a rainha guerreira que protegeu um planeta inteiro da sua maldade sem derramar uma gota de sangue, sem disparar uma arma, sem destruir ninguém. Eu sou a rainha que viajou no tempo e está frente-a-frente ao que você se transformou.

– Pois então admire a imensidão do meu poder, pequena e desprezível rainha. – Respondeu ele.

– Eu não admiro em nada a sua grandeza, Rafide. Você a construiu sobre a dor e o sofrimento dos outros. Você destruiu milhões de casas, de famílias e planetas. Quantas espécies você extinguiu para poder concretizar os seus planos? Quanta destruição você promoveu sobre os projetos maravilhosos de Deus? Quanta injustiça você criou simplesmente para se tornar mais forte… E eu me pergunto o porquê disso! Só que nada justifica o que você faz. Isso precisa ter um fim.

Rafide riu. Mydda continuou:

– Você mesmo está escolhendo um caminho destrutivo enquanto poderia escolher um caminho de evolução. O mal não trabalha a serviço de ninguém, Rafide, as forças do mal tomam em dobro aquilo que dão. Você pode acreditar estar mais forte, a sua aparência assustaria a qualquer guerreiro. Mas não a mim. Você sabe que eu sou o ser mais antigo que habita aquela pequena e distante galáxia de onde vim, o que esses olhos viram em todo esse tempo transformou-se em força. Você sabe tudo o que minha calma e sabedoria conquistaram em todos esses anos. Você sabe o poder que reside em minha alma. E você precisa saber também que o mal tomou a sua alma feito uma doença e hoje está parasitando sua vida.

– Eu sou o próprio Mal – respondeu Rafide – Eu me tornei o próprio Mal.

– Você está enganado, Rafide. O Mal é muito mais antigo e poderoso do que você é. Mesmo tendo chegado até aqui, você é apenas um servo vaidoso dele. E ele não irá defender você nesta batalha, pois ele não ajuda a ninguém, nem mesmo ao mais fiel servo do seu exército.

– Não seja tola, majestade – Rafide riu mais uma vez – essa sua vinda até mim é o seu suicídio; é a sentença de todos os seres que vivem sob a luz do Sol. Conforme-se e renda-se a mim, dê-me os seus poderes para que eu seja enfim a criatura mais poderosa de que já se teve notícia. Aí, então, você poderá voltar derrotada ao seu planeta, eu prometo.

Mydda encarou Rafide por algum tempo, à distância. Ele esperava ansioso pela redenção da rainha, o que o tornaria sabidamente muito poderoso. Mas isso não iria acontecer jamais. Dentro da aparência frágil e doce da soberana de Saturno, esconde-se uma grande e poderosa força capaz de mover planetas inteiros só com a força do pensamento. Mydda é capaz também de ler pensamentos, suas estratégias são engenhosas e muito inteligentes. A rainha então abriu os dois braços e, como se algo a rodasse rapidamente em um eixo, rodopiou e subiu tão alto quanto ele. Com as duas mãos concentradas e juntas, unidas pelas palmas, ela parou no céu daquele lugar desconhecido, compenetrada em uma forte concentração.

Rafide concentrava uma gigante quantidade de energia sobre si, que parecia uma enorme bola de energia elétrica, em tons azulados. A esfera que sustentava sobre sua cabeça era tão grande quanto a Terra. Rafide era mesmo muito poderoso. Enquanto acumulava sua energia maligna para lançá-la sobre Mydda, a rainha iniciava sua defesa, criando um imenso campo de força ao seu redor. Ela já tinha um plano.

– Desista, saturniana atrevida! Eu imaginei que você e sua raça inferior já haviam sido dizimados há centenas de anos, mas não me importo em acabar com você agora! – Rafide esbravejava.

Mydda sabia que apesar da aparência repugnante e do tamanho colossal, o poder  dele não era composto de uma energia organizada e poderia ser vencida por ela em algum momento. Sua engenhosidade e inteligência infinitas davam a ela muitas ideias. Enquanto uma parte dos seus poderes concentrava-se no imenso campo de força ao seu redor, outra parte de si comunicava-se com Deus por telepatia. Juntos eles construíam um gigantesco portal a alguma distância dali.

Rafide deu um grito forte exaltando sua raiva e, ao inclinar-se para frente, a imensa esfera de energia destruidora sobre ele foi lançada das suas mãos, como se arremessasse uma bola pesada por cima da cabeça. A gigantesca massa azul começou a ganhar velocidade a vários quilômetros de distância, onde ele estava, e veio como um cometa riscando o céu escuro em direção a Mydda. Quando cruzava já a metade do percurso, Mydda soltou a conexão com quaisquer seus outros pensamentos focando em recrutar rapidamente sua energia de telecinese, movendo uma estrela em velocidade super-sônica para colidir com o ataque de Rafide. O céu nesse momento ganhou um imenso risco vermelho. A explosão foi colossal e lançou os dois guerreiros a muitos e muitos quilômetros de distância no espaço. Rafide enfureceu-se e, apesar dos poucos movimentos desse início de batalha, o recrutamento desses poderes já começavam a esgotar as energias de Mydda. A batalha necessitava de muita energia poderosa. Ela estava sozinha ali. O plano da rainha não envolvia nenhum ataque direto e ela precisava concentrar-se na sua própria defesa até que o portal estivesse pronto. Mas isso, percebeu ela, não seria nada fácil.

Mentalmente, Mydda resolvia diversos cálculos complexos que se concretizavam em poderes impressionantes, como em mover objetos de grande dimensão. A estrela envolvida na defesa contra Rafide tinha um tamanho aproximado de 10 Terras. A trajetória, a velocidade e a massa da estrela precisaram ser milimetricamente calculadas para gerar o movimento que salvou a rainha do primeiro ataque, tudo muito rápido. Ao mesmo tempo, em conexão mental com Deus, eles agiam o mais rápido que podiam na construção de um portal de alta complexidade energética para onde precisavam atrair Rafide.

– Ah, você acha que me impressiona movendo estrelas e planetas? Pois saiba que você não vai aguentar muito tempo! – Esbravejava Rafide ao longe, sua voz mental atingia Mydda mesmo em toda aquela distância. O grande e maligno imperador vinha agora na direção dela, movendo-se no universo tão veloz quanto um projétil. Perto dali, uma espécie de buraco negro ia se formando.

– Rafide, renda-se e desista de ir contra toda a beleza da vida que existe no Universo! Sua ambição em dominar tudo e todos é doentia! Por que você quer dominar e possuir tantas coisas? Aonde você vai chegar com isso?

– O domínio e posse sobre as coisas é apenas uma maneira de demonstrar a grandeza do meu eu – Respondeu ele.

– Mas se para isso você usa do mal e destrói as obras maravilhosas dos criadores do Universo, se você elimina as diversas e exuberantes formas de vida e causa medo, dor e sofrimento, isso apenas mostra a grandeza da sua maldade e ignorância e a pequenez do seu eu…

– Eu sou o Mal materializado, eu já disse. Eu não preciso explicar a ninguém os meus objetivos. Ao derrotar você, toda a Via Láctea poderá enfim será minha!

– Se toda a sua grandeza é criada em cima da destruição das coisas, então na verdade ela é pequena, porque nada que vem de você é capaz de agregar, de somar. Você torna tudo pior e mais feio para todos. Você está subtraindo as maiores maravilhas que existem em todas as galáxias. Quem tem grandeza dentro de si não precisa se apossar de nada.

Rafide, nesse momento, lançou rapidamente um de seus braços para frente e como se fisgasse um anzol imaginário, tentou capturar Mydda à distância. Porém, seu encantamento não foi capaz de atravessar o campo de força criado por Mydda. Relâmpagos pintaram o céu de azul.

Raivoso, ele atacava Mydda com palavras:

– Como você arrisca sua vida em nome de seres que nem sabem da sua existência? Você fala do despropósito presente nas minhas ações, mas sua atitude heroica não faz sentido algum. – A impotência de Rafide contra os poderes da rainha começavam a deixá-lo desconcertado. – Você, que vive escondida dentro de um planeta, como um verme!

– Oh, Rafide, um ser da sua categoria jamais entenderá certos valores. De que adianta para mim continuar a viver numa galáxia em que a dor, o sofrimento e a injustiça imperam? Um lugar sem beleza e sem um futuro bom? Não vou permitir que a vida dos seres que de mim dependem seja transformada em escravidão, que a natureza deles seja alterada para o mal. De nada adiantará todo o poder que conquistei durante esses milhares de anos em que existo se eu não lutar para dar um fim ao seu reinado de destruição. Eu usarei todos os meus recursos para transformar a galáxia em que vivo em um lugar melhor para todas as raças.

Rafide, ao sentir-se acuado, chantageou a rainha:

– E para isso a gentil e bondosa rainha fará o quê? Cometerá um assassinato? Gostaria de saber se sua imensa piedade é boa demais para eu merecer ou se no final das contas você irá poupar a minha vida. Você não terá força nem coragem para me destruir!

– Rafide, infelizmente você não responde mais sozinho pelos atos que comete. A insanidade do mal invadiu os seus pensamentos, já não consegue pensar com clareza. Você está gerando sua própria destruição há milênios, e o fato de eu estar aqui é apenas uma consequência dos seus próprios feitos do passado. Eu não teria viajado em tempo e distância tão grandes à toa. Sua ação nos diversos planetas é destrutiva e o bem corre perigo. Nenhum átomo no Universo terá sentido de existir se o bem não existir mais. Se apenas o mal que você professa passar a existir, então tudo estará perdido porque nada mais terá razão de ser. Ninguém será capaz de sobreviver sem sorrisos, sem abraços e sem amor. Ninguém suportará a dor que toda a sua destruição causará, em lugar algum no Universo. A minha própria existência terá sido em vão se eu não for capaz de parar o processo maligno iniciado por você.

O monstruoso imperador do mal então atraiu para o redor de si vários corpos celestes que circulavam, formando uma enorme aréola sobre sua cabeça. Asteroides e pequenos meteoros orbitavam em torno dele. Num súbito movimento de abrir os braços, estufou o peito, fechando todos os olhos, exprimindo um grunhido malévolo, ele os atirou em Mydda, como uma metralhadora. Ao colidirem com o campo de força, explosões e ondas de energia surgiam, como se estivessem colidindo a um planeta. Ela, no centro, apesar de não sofrer a colisão dos astros lançados, enfraquecia à medida que eles enfraqueciam o círculo eletromagnético que a envolvia, e ela precisava reforçá-lo a todo momento. Centenas de colisões! O espetáculo celeste era desproporcional à agressividade da luta. Um show de cores aparecia nos confins daquela dimensão. Os seres de um pequeno planeta distante dali visualizaram os fenômenos e acharam muito bonitos. Celebraram como se estivessem vendo cometas coloridos nos céus. Não imaginavam que suas vidas estavam correndo sério perigo caso Mydda não tivesse força para suportar àquele ataque.

De sua pequena estrela a milhões de anos-luz dali e no passado de 10 mil anos, Deus pairava em uma imensa cápsula redonda em conexão telepática com Mydda, enviando energia e ajudando-a a solucionar os complexos cálculos necessários para a criação do portal. Eles estavam criando um gigantesco wormhole: uma espécie de portal que se assemelha a um caminho deixado por uma minhoca no espaço, só que é muito maior. Por esse buraco, pode-se viajar no espaço e no tempo muito mais rápido do que a velocidade da luz. Esse ere o elemento central do plano de Mydda.

Após bombardear a rainha com os corpos celestes e enfraquecê-la ainda mais, fragilizando seu campo de força, Rafide fez uma imensa ameaça:

– E não é que a majestade tem certa força? Pois bem, acredito que será mais fácil bombardear e destruir o seu planetinha, caso você não se renda.

Mydda esperava por isso em algum momento, tinha lido nos pensamentos dele a respeito dessa ideia. Uma ideia covarde, utilizada inclusive pelos seres humanos em várias épocas de sua história: a guerra. O ataque a seres inocentes para pressionar a rendição de um governo ou de um soberano. Rafide não hesitaria em destruir o maravilhoso planeta.

– Por favor, Rafide, você não percebe que sua batalha é um despropósito? Eu lhe imploro. Deixe o meu planeta em paz! Eles não fazem ideia dos motivos deste duelo. Eles não têm culpa alguma. Estão vivendo em paz com suas famílias, não é justo que sofram! Vamos resolver sozinhos os nossos problemas!

– Bem se vê que a nobre princesinha não entende nada sobre governos! Sem guerras não há conquistas, sem que alguns pobres inocentes morram, um grande imperador não conquistará nada. Isso é praticamente uma lei universal!

– Oras, isso só será uma lei universal enquanto você e seus generais dominarem a política na galáxia, influenciando os seres com sementes malignas, infiltrando-se na calada da noite para criar desavença entre os povos. Acredite, sua dinastia milenar vai ter um fim!

Nesse momento, Rafide aproximou-se do campo de força de Mydda, tentando quebrá-lo com as próprias garras. Não conseguiu, mas a força que aplicou foi suficiente para empurrá-la juntamente ao campo de força que a envolvia por vários quilômetros no espaço. Neste momento, Mydda desfez seu escudo invisível. Eles estavam à distância mais curta desde o começo dessa terrível batalha. Ela podia sentir a respiração quente dele, jatos furiosos de um vapor tão escaldante quanto a lava de um vulcão. A simples proximidade era perigosa para a nossa rainha e para qualquer outro ser, fosse deste ou de qualquer Universo.

Ao receber o sinal de Deus, anunciando que o wormhole estava pronto, era hora de dizer as últimas palavras a Rafide. Mydda não escondeu a tristeza que misturava-se ao medo. À curta distância, ela declarou a ele:

– Rafide, não escondo a tristeza que sinto por não haver qualquer outra possibilidade neste momento. Infelizmente, no momento de onde vim, quando saí do passado em que conheci sua existência, você ainda era um guerreiro que tinha valores os quais ainda tornavam forte seus propósitos. Sejam eles quais fossem antes disso, não existiram por tempo suficiente para que eu os conhecesse por completo, só o que saía de você já era apenas maldade. Sua aliança com o mal não falhou em tornar seu eu cada vez fraco e menor. Você talvez não perceba, mas eu posso ver a sua alma sendo parasitada por uma força que não é de nenhum Universo próximo. Você destruiu a si próprio ao aceitá-la todos os dias, alimentando sua vaidade enquanto doava a ela sua própria existência. E este é o seu fim.

Neste momento, a última gota de energia do bem presente na alma do imperador terminou de evaporar, como uma vela que chega ao fim e se apaga, e ele se transformou em uma besta diabólica. Mydda sabia do exato momento em que isso aconteceria, tinha chegado a hora. A energia acumulada no cérebro da rainha, concentrada enquanto esparava o momento certo, causou uma gigantesca explosão dentro de sua cabeça, sua energia expressou-se extremamente poderosa, em lasers de tons violáceos, escapando em alta velocidade pela luz do seu olhar. Saíram como dois fachos potentes, que empurraram o monstruoso Rafide para bem longe, em direção à fronteira final do seu destino: o wormhole. Ao chegar próximo de sua extremidade, Rafide teve seus grunhidos e urros assustadores calados em um instante certeiro. Foi atraído na velocidade da luz, ou muito mais, ao centro do wormhole e ejetado – tudo em menos de um segundo – para um outro tempo e um outro espaço: para exatamente 10 mil anos atrás.

No local em que saiu, sem a última gota do bem que residia em sua alma, ele era um puro e desgovernado monstro do mal. O que Mydda fez foi criar uma gigantesca ponte no espaço-tempo, escolhendo agir apenas no último momento, após o último resquício de esperança, quando a última gota do bem deixasse de existir em Rafide. A besta saiu do portal expressando toda a maldade e destrutividade acumuladas em todos esses milhares de anos em que existiu, sedenta por devorar a primeira fonte de energia que encontrasse pela frente, precisava se nutrir. Graças à ajuda de Deus e seus cálculos arquitetônicos perfeitos, Mydda ejetou o imperador do mal no exato lugar, exibindo-o ao seu passado de escolhas erradas. Dois Rafides coexistiram por um segundo. O Rafide do futuro não hesitou em devorar, no passado em que foi lançado, o Rafide que lá residia, 10 mil anos mais novo. Não era mais dotado de razão que o permitisse  discernir o certo do errado. O mal que aceitou nutrir o corroeu a tal ponto que não podia separar a si próprio dos outros. Devorou suas próprias vísceras e, assim que terminou a refeição, sua imagem foi se apagando. Até que sumiu. Sem o imperador que escolheu aliar-se ao mal, a besta do futuro não existia mais também.

– Este foi seu fim. Não houve assassinato, eu não o ataquei nenhuma vez. Houve apenas a justiça que haveria se as fronteiras do espaço-tempo pudessem ser transponíveis por todos. A partir daquele momento muitos e muitos seres voltariam a existir. Muitos outros sairiam da opressão. Eu estava aliviada. – Disse Mydda.

Vitoriosa, exausta, perdida e sozinha num futuro distante, estava agora a Imperatriz da Galáxia. No passado, o mal enfim havia sido derrotado. Rafide deixou de existir e sua história havia sido limpada também dos próximos 10 mil anos de reinado sobre o Universo.

– Era a hora de eu fazer o caminho inverso e tomar aqui o meu trono. – Mydda finalizou a história que me contava.

A rainha, à minha frente, no Jardim do Impossível, enxugava as lágrimas ao reviver tão difícil momento. Sua imensa força estava abalada pelo sofrimento das memórias e do todo o medo que sentiu. Ela me ensinou, assim, que até mesmo o maior guerreiro do mundo – ou do Universo – pode ter medo diante de uma batalha. E que ainda assim pode vencê-la. Fiquei a olhar a aparente fragilidade de seu rosto bonito e ruivo, sua pele clara, riscada ali, de leve, pelas gotas que caíam dos olhos.

– Há quanto tempo você voltou do futuro, Majestade?

Com um sorriso, após enxugar as últimas lágrimas, ela repousou uma mão sobre o meu ombro e disse:

– Há algumas horas, Viajante, por isso ainda estou um pouco cansada.

O worhmole criado por Mydda, com a ajuda de seu amigo arquiteto: Deus.

[continua…] 

[Como os  textos de Zeg e Lui ainda não passaram por revisão ortográfica, alguns  erros de digitação ou grafia podem estar presentes.  Peço a colaboração do leitor. 😉 ]

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A Década do Ser Desumano

Talvez o que você vai ler depois do primeiro ponto final deste texto seja uma imensa besteira. Cada pessoa tem seus pensamentos e ideias e a gente é livre para isso, e é livre inclusive para escrevê-las. E no que eu tenho pensado muito é sobre a transformação das pessoas nos últimos anos. Antigamente as coisas eram diferentes. As pessoas eram diferentes. Antigamente, eu digo, há uns dez anos. Antes disso eu não posso dizer com muita lucidez, aliás, até posso porque a gente sempre ouve histórias sobre “aqueles tempos”; pai, mãe, tio e avô, todos têm uma história para contar acerca da diferença dos tempos. E eu acho mesmo que as coisas são drasticamente diferentes de tempos em tempos quando comparados de 10 em 10 anos, por exemplo. Anos 70, 80, 90, não é assim que a gente separa?

Os anos 2010, e isso pode ser uma imensa besteira, estão correndo o risco de serem lembrados como a década dos chatos. Vamos com calma. Bem, a tal da revolução da informação está trazendo novas maneiras de nos comunicarmos uns com os outros e isso é sensacional. Foi através da comunicação que nossa espécie conquistou o mundo e criou uma sociedade globalizada. Mas com o avanço dessas tecnologias – e eu quero focar nas redes sociais – com o consequente acesso democrático a elas, sem preparo e de maneira viral – um outro exemplo do imenso potencial epidêmico dessa nova era – algumas pessoas são pegas despreparadas e isso pode causar alguns problemas. Não agora, mas no futuro. Por enquanto só incomoda.

O Facebook, por exemplo, é um imenso Big Brother e poucas pessoas percebem isso. Não tem prêmios, mas tem ônus. E quanto mais as pessoas aparecem por lá, mais estão na berlinda. E a epidemia de chatos que está por vir vai ser de pessoas que se autopromovem o tempo todo, que disseminam informações inúteis e enchem sua vida de piadinhas infames. Mas como todo mundo é livre inclusive na rede, você pode cancelar a assinatura dessas pessoas e evitar as postagens incômodas. Aí então, o Facebook, para não deixar a sua timeline vazia, começa a mostrar atualizações de outras pessoas que você não seguia antes. On and on. E você vai cancelando, mas os chatos continuam aparecendo. Isso não é um problema, não. O problema é o que está por vir.

O que está por vir é que as pessoas aprendem o que são ensinadas. As pessoas desenvolvem-se em direção ao que são estimuladas. O problema é que as pessoas que estão sendo contagiadas pelo exibicionismo, piadinhas compartilhadas, pseudo-revolucionarismo e modismos de todo o tipo estão transitando com você o tempo todo. Meu medo é que as redes sociais tomem o lugar da escola na educação das pessoas, porque dos livros já tomou e a gente sabe disso. A TV tem seus dias contados, hoje a publicidade está nos videos do YouTube e você assiste apenas o que quer, mas a propaganda é obrigatória. Repare. As redes sociais reinventam a sociedade, mas afastam-na do conceito essencial do que uma sociedade é: um grupo de pessoas que se ajudam, que convivem. E a gente não convive com amigos virtuais, não. Quantos de nós nem oi damos ao encontrar aquele amigo que vive curtindo nossas publicações? Pois então, amizade feita ou desfeita na rede não é amizade, deveriam ter dado outro nome, isso tá tudo errado. Deveria se chamar algo como “relação virtual”. Deseja desfazer sua relação virtual com Fulano? Sim, por favor. Substitua por uma de verdade, se possível.

Eu não sei como seremos daqui a 10 anos, não consigo supor com muita acurácia. Mas acredito que essa influência das redes sociais e dessa grande mudança de paradigmas na maneira de se relacionar refletirá na personalidade das pessoas, com certeza. Haverá muito mais pseudos. Wannabes. Uma imensa legião de pessoas que gastaram seu tempo vendo propagandas e idiotices gratuitas e deixaram de curtir um dia de praia, um passeio no parque, um bom livro ou uma boa conversa. Porque agora as pessoas se juntam para ficarem com seus respectivos smartphones, reunidos, em um ritual de veneração ao modismo e ao consumo. Pra mim, a década de 2010 vai ser considerada a grande década da desumanização; a década da softwarização da vida. Mas isso tudo talvez seja uma imensa besteira, como eu já disse.

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Pastor lider da igreja evangélica compara homossexuais a assassinos, em entrevista

Assistindo a esses 45 minutos da entrevista de Marília Gabriela com o Pastor Silas Malafaia, já que eu lancei aqui neste rede social o video para que meus amigos e conhecidos possam tirar suas próprias conclusões a respeito dele e das ideias que ele dissemina nos meios de comunicação, como cidadão, como cientista e como ser humano, vou fazer uso do meu direito democrático de dizer o que penso sobre o que vi e ouvi.
No primeiro bloco, sobre o questionamento a respeito de sua fortuna de 300 milhões de reais, Silas refutou vagamente a veracidade dos dados levantados pela Forbes – revista americana especializada em grandes fortunas. Um papel de imposto de renda mostrado à jornalista não necessariamente é mais válido do que uma reportagem de âmbito internacional, pois esse suposto papel de imposto de renda obedece aos interesses do próprio pastor que não levantaria provas contra si mesmo, já que o enriquecimento exponencial de um líder religioso cristão é mal visto pela nossa sociedade, pois falam em nome de Jesus Cristo que, dentre outras coisas, pregou o desapego material e condenou a exploração do homem do ponto de vista financeiro no tempo em que viveu na Terra. Assumir o que a revista levantou a respeito de sua fortuna seria se contradizer do ponto de vista filosófico que ele mesmo segue.
Sobre a homossexualidade – cujo verbete é evitado pelo pastor, que utiliza o sufixo “ismo”, que designa, sim, doença e não comportamento, a exemplo de etilismo, raquitismo, reumatismo – ele coloca os homossexuais na mesma categoria de bandidos e assassinos, durante a entrevista. Ele ainda falou a respeito de genética, dizendo que gêmeos univitelinos deveriam ser homossexuais se isso assim pela genética fosse determinado. Pois ele carece de alguns outros conceitos a respeito do desenvolvimento humano que complemento agora. Esse espectro da variabilidade humana tem, sim, seu caráter geneticamente determinado mas não de maneira cromossômica como o sexo homem/mulher, que é determinado pelos cromossomos X e Y. Assim como a nossa psiquê e outras características individuais da pessoas, estão presentes no sequenciamento GÊNICO e não CROMOSSÔMICO. Genes são pequenas partes que compõem os cromossomos. Além do mais, existem fatores AMBIENTAIS que atuam junto à determinação genética, como o meio, a educação, as relações sociais, as emoções e os sentimentos. O homem não é um ser robótico que possui um software de como funcionar ou que possui características facilmente aferíveis por estudos observacionais ou ensaios clínicos. Não podemos dizer como o ser humano funciona em sua totalidade porque nada é tão simples quanto duas letras X e Y. Como os animais e como os nossos ancestrais na História, somos uma espécie que não foge a essa determinação natural de desenvolvermos individualidade e de esperarmos respeito pelos seres de nossa própria espécie.
Sobre a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, o pastor foi vago em solidificar seus argumentos, parecendo ignorar o maior de todos os fatos: um casal homossexual pode não proporcionar o mesmo ambiente que uma família tradicional faria, mas certamente faria um trabalho melhor do que uma instituição lotada de crianças, com abandono e maus tratos, crianças que são criadas na coletividade sem amor direcionado especificamente a elas, e se tornariam pessoas e cidadãos melhores, com certeza. Gostaria de saber se ele, caso fosse abandonado pelos seus pais heterossexuais ou os perdesse na infância, para onde preferia ser mandado: para um orfanato até os 18 anos de idade ou para o lar de duas pessoas que não mediriam esforços para cuidar dele?
Além disso, vivemos num estado LAICO, ou seja, o território brasileiro é regido pelas leis dos HOMENS e não pelo que está na Bíblia – que os religiosos insistem em dizer ser a palavra de Deus, mesmo tendo sido escrita por homens há mais de 2000 anos, que não tinham a mínima noção de ciência e que viviam em estruturas sociais muito distintas das nossas. A palavra de Deus deveria – pela lógica – ser considerada a palavra de Jesus na Terra, que em suma, se resumia em uma única: amor. E amar uns aos outros é respeitar os direitos daqueles que estão ao redor, respeitando também sua natureza, suas escolhas e sua individualidade. Do ponto de vista laico, aqueles que estão sob o território brasileiro e pagam seus impostos e são isentos de qualquer crime perante a justiça, devem gozar dos mesmos direitos. Isso é democracia. O que ele tenta instaurar é uma teocracia furada, baseada em argumentos duvidosos.

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